O comunicado saiu com a naturalidade entediada de quem anuncia o horário do almoço. A taxa preferencial de um ano segue em 3%, a de cinco anos em 3,5%, ambas nos menores patamares da história do regime, e a manchete replicada mundo afora trata o evento como se fosse fenômeno meteorológico, algo que simplesmente acontece, como chuva no verão. Não acontece. É decisão política, tomada por um comitê de homens de terno que decidem, na base do palpite revestido de modelo econométrico, quanto vale o sacrifício de quem adia consumo para emprestar a quem precisa produzir. A palavra técnica para isso é planejamento central. A palavra honesta é confisco disfarçado de prudência.

Siga o dinheiro e a névoa se dissipa em três segundos. Juros artificialmente baixos sangram o poupador, aquele cidadão antiquado que guardou parte do salário em vez de torrar em gastança imediata, e subsidiam o tomador gigante, o conglomerado estatal endividado até o pescoço, a incorporadora zumbi que deveria ter falido em 2021, o banco público que precisa rolar trilhões em empréstimos podres sem declarar o prejuízo. É uma transferência silenciosa de renda, dos milhões que pouparam para os poucos que quebraram, e o nome disso nunca aparece na reportagem porque o nome verdadeiro é roubo administrativo. Quando o imperador romano aviltava a moeda raspando prata das bordas, ao menos tinha a decência de não chamar de estímulo econômico.

O fundamento filosófico do truque é sempre o mesmo, e sempre falho. Premissa primeira: o preço do dinheiro, como o preço da alface e do parafuso, carrega informação sobre escassez, preferência temporal e risco. Premissa segunda: se o preço for falsificado por decreto, a informação transmitida aos agentes econômicos também será falsa. Conclusão inevitável: investimentos serão feitos em projetos que pareciam rentáveis apenas porque o custo do capital estava mentindo, e o ajuste virá depois, mais doloroso, na forma de cidades fantasmas, bolhas imobiliárias e aquele silêncio constrangedor dos oráculos que juraram que desta vez era diferente. A China tem, empilhadas, o equivalente a duas Espanhas inteiras em metros quadrados vazios. Ninguém pergunta por quê.

O detalhe saboroso é o coro ocidental aplaudindo. Comentaristas que passaram duas décadas jurando que mercados livres eram coisa de selvagem agora elogiam o pulso firme de Pequim em manter juros previsíveis, como se previsibilidade decretada fosse sinônimo de estabilidade real. Não é. É a estabilidade do paciente sedado. A economia chinesa cresce oficialmente 5% ao ano porque o partido determinou que cresceria 5% ao ano, e qualquer estatístico que apresentasse número diferente seria convidado a revisar o próprio currículo em alguma província interior. Chamar isso de dado econômico é elogio excessivo; é liturgia, com incenso e tudo.

A lição que ninguém quer tirar é a que está escrita em letras garrafais em cada episódio histórico de controle artificial de juros, do assignat francês ao milagre japonês dos anos 80, passando pelos tigres asiáticos de 1997. Quando o Estado fixa o preço do tempo, alguém paga a diferença, e quem paga nunca é quem assinou o decreto. Paga o trabalhador cuja poupança rende menos que a inflação oculta dos ativos. Paga o jovem que não consegue comprar imóvel porque o crédito barato inflou o metro quadrado além do salário possível. Paga, no fim da festa, o contribuinte, quando o socorro bancário inevitável vier embrulhado em nome técnico, pacote de liquidez, facilidade emergencial, qualquer eufemismo que evite pronunciar a palavra falência.

Resta a pergunta que abre e fecha toda análise honesta de política monetária, seja em Pequim, Brasília ou Washington. Quem paga e quem recebe? Paga o chinês comum, que poupa em yuan e vê seu esforço evaporar silenciosamente. Recebe o Estado endividado, que rola sua dívida barato; recebem os conglomerados protegidos, que refinanciam esqueletos; recebem os políticos do partido, que compram mais um trimestre de crescimento fabricado antes da próxima reunião do comitê central. O resto é legenda em jornal econômico, escrita por quem confunde comunicado oficial com análise.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.