A notícia chega com aquela aparência asséptica de página de negócios, como se fosse apenas mais uma fusão entre empresas adultas e respeitáveis. Uma fabricante chinesa de materiais para baterias negocia adquirir uma mineradora australiana que detém os direitos sobre Ewoyaa, a primeira grande mina de lítio do oeste africano. Traduzindo do dialeto financeiro para o português dos mortais: o regime de Pequim, via seus prepostos corporativos, acaba de dar mais um passo para fechar o cerco em torno da matéria-prima que move tudo aquilo que o Ocidente jura ser o futuro, do carro elétrico ao celular que você usa para reclamar do governo no Twitter.
Pergunta higiênica antes de qualquer análise: quem paga e quem recebe? Quem paga é o consumidor europeu que será obrigado por decreto a comprar carro elétrico em 2035, o motorista brasileiro que verá o preço da bateria embutido em cada quilômetro rodado, o contribuinte americano que financia subsídios bilionários para uma indústria verde cuja espinha dorsal está, ironicamente, nas mãos da ditadura asiática. Quem recebe é o Partido Comunista Chinês, sócio majoritário tácito de toda empresa chinesa que opere acima de certo porte, com poder de veto sobre conselho, sobre executivo e sobre o destino do minério extraído. Não existe empresa privada na China no sentido em que a palavra significa alguma coisa; existe braço empresarial do Estado vestido com gravata de Davos.
Ewoyaa não é um detalhe geográfico. Gana, durante décadas, foi vitrine da chamada cooperação chinesa na África, eufemismo gentil para a troca de empréstimos opacos por concessões de longo prazo sobre recursos estratégicos. O roteiro é velho como as Companhias das Índias, apenas com bandeira vermelha em vez de tridente: financia-se a estrada, financia-se o porto, financia-se o palácio do ditador local, e quando a conta vence, o pagamento sai em forma de mineral, de terra, de soberania. A diferença é que as antigas potências coloniais ao menos tinham a decência de admitir o que estavam fazendo. A nova ocupação se apresenta como parceria win-win, expressão tão sincera quanto convite de cobrador para um café.
A lógica é simples e dispensa cerimônia. Se o Ocidente decidiu, por capricho moral e oportunismo regulatório, que vai eletrificar tudo até depois de amanhã, e se a eletrificação depende de lítio, cobalto, níquel e terras raras, então quem controla a oferta desses minerais controla a transição. Premissa maior: a indústria verde precisa de bateria. Premissa menor: a bateria precisa de lítio em quantidade industrial. Conclusão inevitável: o dono do lítio é o dono da indústria verde. E o dono do lítio, neste momento, dorme em Pequim e acorda comprando mais um pedaço da Austrália, da Argentina, do Chile e agora de Gana, enquanto os parlamentos europeus debatem se a palavra mãe é ofensiva.
O mais saboroso da farsa é o discurso ambientalista que serve de cobertura para esse arranjo. Vende-se ao público a fantasia de um planeta salvo por energia limpa, omitindo-se que a extração de lítio devasta lençóis freáticos, que a refinaria fica majoritariamente em províncias chinesas com regulação ambiental decorativa, e que o operário que cava o minério em terras africanas recebe miséria para que o burguês de Berlim possa exibir seu sedan elétrico de oitenta mil euros com a consciência tranquila. A santidade verde, como toda santidade subsidiada, tem CNPJ, tem fornecedor, tem patrão. E o patrão fala mandarim.
Enquanto isso, o governo brasileiro, sentado sobre uma das maiores reservas de lítio do mundo no Vale do Jequitinhonha, segue ocupado em criar agência reguladora, conselho consultivo, comitê interministerial e cota de gênero para mesa redonda sobre mineração sustentável. O resultado prático é previsível: quando acordarmos, o minério já terá sido comprado por intermediário canadense, revendido a fundo de investimento suíço, e finalmente entregue à mesma empresa chinesa que hoje compra Gana. Nações sérias defendem seus recursos; nações simpáticas exportam matéria-prima e importam ideologia. Adivinhe em qual categoria estamos. Quem paga é o povo, quem recebe é sempre o mesmo escritório, e o mapa do mundo, no fim do dia, continua sendo desenhado por quem tem coragem de pegar a caneta enquanto os outros discutem a cor da tinta.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.