O governo britânico decidiu que a Ming Yang, gigante chinesa de turbinas eólicas, não pode participar de projetos de energia eólica offshore no Reino Unido. O motivo oficial é "segurança nacional". Repita comigo: segurança nacional. Estamos falando de pás de turbina girando no Mar do Norte, não de ogivas nucleares apontadas para Londres. Mas o Estado, como todo bom prestidigitador, precisa de uma cortina de fumaça solene para esconder o truque mais velho do mundo, que é proteger os amigos do rei da competição estrangeira.
A China, evidentemente, protestou. E protestou com razão, não porque Pequim seja um bastião da liberdade comercial, longe disso, mas porque a hipocrisia britânica neste caso é tão espessa que se poderia cortá-la com faca. O mesmo Reino Unido que passa décadas pregando livre comércio nos fóruns internacionais, que deu lições de abertura econômica a meio planeta, que saiu da União Europeia supostamente para ter mais liberdade de negociar com o mundo, agora fecha a porta na cara de quem oferece tecnologia eólica mais barata. A pergunta que ninguém faz nos editoriais respeitáveis é a mais óbvia de todas: se a Ming Yang oferece turbinas piores ou mais caras, o mercado a rejeitaria sozinho. Se oferece turbinas melhores e mais baratas, quem exatamente está sendo "protegido" quando o governo a barra? Não é o consumidor britânico, que pagará mais caro pela energia. É o fabricante britânico, ou europeu, ou americano, que não consegue competir no preço.
Siga o dinheiro e o mapa se desenha sozinho. O setor eólico offshore é um dos maiores sorvedouros de subsídio público do Ocidente. Governos despejam bilhões em "transição energética", e esses bilhões precisam cair nos bolsos certos. Uma empresa chinesa competitiva demais bagunça a festa, porque se ela ganha os contratos, o dinheiro do contribuinte britânico financia empregos em Guangdong em vez de financiar empregos em Glasgow. O problema nunca foi segurança nacional. O problema é que o protecionismo precisa de um nome bonito, e "segurança nacional" soa infinitamente melhor do que "reserva de mercado para os nossos".
É instrutivo notar como o conceito de "segurança nacional" se expandiu ao ponto de se tornar inútil. Na Guerra Fria, segurança nacional significava mísseis, submarinos, códigos criptográficos. Hoje significa turbinas eólicas, aplicativos de vídeo curto, guindastes portuários e chips de celular. Quando tudo é questão de segurança nacional, nada é questão de segurança nacional. O termo virou um cheque em branco que o Estado preenche com o valor que quiser, e o contribuinte assina sem ler. Qualquer setor que tenha lobby suficiente pode ser declarado "estratégico" da noite para o dia, e qualquer competidor estrangeiro inconveniente pode ser declarado "ameaça" sem que se apresente uma única prova concreta de espionagem ou sabotagem.
O mais irônico é que toda essa pantomima acontece sob o estandarte da energia verde. O mesmo establishment que repete dia e noite que o planeta está em emergência climática, que cada dia sem ação é um dia mais perto do abismo, esse mesmo establishment prefere pagar mais caro e demorar mais para instalar capacidade eólica do que aceitar uma turbina com ideograma na etiqueta. Se a crise climática fosse mesmo a ameaça existencial que dizem ser, não haveria espaço para esse tipo de frescura geopolítica. Mas é claro que a crise climática, para quem está no poder, nunca foi sobre clima. É sobre controle: controle de quem produz, de quem vende, de quem instala, de quem lucra. O vento é de todos, mas o dinheiro do vento é de poucos.
No fim das contas, o contribuinte britânico vai pagar a conta duas vezes: primeiro nos impostos que subsidiam o setor eólico, depois no preço inflado da energia que resulta da eliminação artificial de um competidor. A Ming Yang volta para casa, os fabricantes protegidos abrem champanhe, os políticos fazem discurso sobre soberania, e o cidadão comum, como sempre, é o último a saber que acabou de ser roubado com pompa e circunstância. Quem paga e quem recebe? Você já sabe a resposta.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.