Quatro encontros de alto escalão em menos de quatro meses. O chanceler russo desembarca em Pequim para mais uma rodada daquilo que os comunicados oficiais chamam, com a solenidade vazia de sempre, de "discussões sobre questões internacionais". Traduzindo do idioma burocrático para o português dos mortais: dois Estados autoritários estão consolidando uma aliança militar, econômica e estratégica diante de um Ocidente que oscila entre a indignação teatral e a cumplicidade silenciosa. O espetáculo seria cômico se as consequências não fossem trágicas.
O que ninguém ousa dizer nos editoriais bem-comportados é que essa aliança sino-russa não caiu do céu. Foi construída, tijolo por tijolo, com a argamassa da estupidez ocidental. Foram décadas de políticos europeus e americanos empurrando suas indústrias para a China em troca de mão de obra barata, enquanto empresários aplaudiam os lucros trimestrais e ignoravam que estavam alimentando o maior aparato estatal do planeta. Foram anos de dependência energética europeia do gás russo, com a Alemanha à frente, desativando usinas nucleares para comprar metano de Moscou como quem cancela o seguro do carro porque "nunca aconteceu nada". Agora que os dois gigantes se abraçam publicamente, o establishment finge surpresa. É o sujeito que vendeu a corda ao carrasco e reclama do enforcamento.
Sigamos o dinheiro, porque ele nunca mente. A Rússia, asfixiada por sanções que funcionam mais como peneira do que como bloqueio, encontrou na China o comprador insaciável para seu petróleo, seu gás e seus minerais. Pequim paga com desconto, obviamente, porque é assim que se negocia com quem não tem alternativa. A China, por sua vez, ganha acesso a recursos naturais a preço de banana e a um aliado militar que distrai a atenção americana na Europa enquanto ela avança no Pacífico. É um casamento de conveniência entre dois regimes que desprezam liberdades individuais, e o dote foi pago pelo contribuinte ocidental que, durante três décadas, financiou a industrialização chinesa via consumo e o aparato militar russo via importação de energia. O pagador nunca foi consultado, naturalmente. Nunca é.
A liturgia desses encontros é sempre a mesma: sorrisos protocolares, declarações vagas sobre "ordem multipolar" e "respeito mútuo", e por trás das cortinas, acordos bilaterais que redesenham o mapa do poder global. "Ordem multipolar" é o eufemismo favorito de quem quer dizer "queremos nosso pedaço do bolo sem que ninguém nos incomode com bobagens como direitos humanos". É a velha lógica imperial vestida de vocabulário progressista. Quando a China fala em "soberania", quer dizer o direito de esmagar uigures sem comentários externos. Quando a Rússia fala em "segurança", quer dizer o direito de invadir vizinhos sem consequências reais. E o Ocidente assiste, emite notas de repúdio e continua comprando o que precisa de ambos.
O mais revelador nessa dança é o que ela expõe sobre a natureza do Estado enquanto instituição. Não importa a bandeira, não importa a ideologia declarada, o padrão se repete: governos se aliam não por valores, mas por interesses de poder. A China comunista e a Rússia oligárquica, que deveriam ser inimigas segundo qualquer manual ideológico, se abraçam porque a geometria do poder assim exige. O Estado não tem amigos, tem cúmplices temporários. E o cidadão comum, seja em Xangai, em Moscou ou em Washington, cumpre sempre o mesmo papel: financiar a festa à qual não foi convidado. Quatro reuniões em quatro meses. Algo grande está sendo costurado. E pode ter certeza absoluta de uma coisa: quando a conta chegar, ela não será enviada ao Kremlin nem ao Zhongnanhai. Será dividida, como sempre, entre os que não tiveram voz nem voto no assunto.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.