Choveu em Pernambuco e morreu gente. Outra vez. Seis vítimas confirmadas, uma criança entre elas, mais de mil e seiscentas pessoas desabrigadas, quinhentas e vinte e cinco resgatadas pelos bombeiros enquanto o resto se vira como pode em cima do telhado, esperando o helicóptero da reportagem antes do bote do socorro. A cena é tão repetida que dá para prever o roteiro frame a frame, inclusive o momento em que algum secretário de Defesa Civil aparecerá para informar, com cara de luto profissional, que o volume de chuva foi atípico, histórico, sem precedentes. É sempre sem precedentes. Todo ano.

Vale a pena perguntar uma coisa simples, daquelas que ninguém da imprensa oficial faz porque a resposta envergonha. Onde foi parar o dinheiro do IPTU, do ICMS, do ISS, do imposto sobre combustível, dos royalties, das transferências federais, dos empréstimos do BNDES para obras de drenagem, dos planos diretores, dos PACs um, dois e três, das contrapartidas, das emendas parlamentares carimbadas como infraestrutura urbana? Pernambuco não é um deserto fiscal. É um dos estados mais tributados da federação per capita, e o Recife, especificamente, recolhe rios de dinheiro. Rios literais, aliás, hoje correndo dentro das casas dos pobres da Zona da Mata.

A lógica é elementar e por isso mesmo proibida no debate público. Se um morador da periferia precisa pagar imposto sob ameaça de penhora para que o poder público execute saneamento, drenagem e contenção de encostas, e o serviço simplesmente não é entregue, o que aconteceu não foi uma falha administrativa. Foi uma transação fraudulenta. Um cara dá o dinheiro, o outro promete o serviço, o serviço não vem, e o cara que pagou ainda morre afogado. Em qualquer relação privada isso teria nome no Código Penal. No setor público vira desafio de gestão e rende coletiva de imprensa com ar compungido.

O truque é antigo, vem desde os tempos em que imperadores romanos distribuíam pão e circo enquanto os aquedutos racharam por falta de manutenção. A diferença é que lá pelo menos o aqueduto existia antes. Aqui, a obra de drenagem do Capibaribe é refeita, refinanciada e rebatizada a cada quatro anos, sempre com nome diferente, sempre com empreiteira amiga, sempre com inauguração antes da eleição e enchente depois da posse. O ciclo é tão previsível quanto a maré, e tão impune quanto ela. Quem paga é o sujeito da casa de alvenaria sem reboco que viu o sofá boiar pela rua. Quem recebe é o consórcio que faturou pela obra que não drenou, o vereador que indicou o consórcio, o cabo eleitoral que entregou cesta básica na enchente passada e voltará a entregar nesta.

E aí vem a parte mais cínica do espetáculo, a fase do helicóptero. Governador sobrevoa a área, ministro promete recursos emergenciais, presidente decreta calamidade, e tudo o que era obrigação ordinária paga há décadas pelo contribuinte vira agora auxílio, benefício, socorro humanitário. Confisca-se em janeiro, devolve-se uma migalha em maio, e o sujeito ainda tem que agradecer de joelhos, pendurar santinho na geladeira e votar de novo no mesmo grupo em outubro. É o golpe perfeito, executado à luz do dia, com cobertura jornalística favorável e legenda emocionada nos telejornais. A vítima beija a mão do ladrão e chama de pai.

Seis mortos não são estatística meteorológica. São o resultado matemático, frio, inevitável, de um arranjo onde o pagador é obrigado por lei e o prestador não é obrigado por nada. Enquanto essa equação não for invertida, enquanto o cidadão não puder escolher para quem entrega o próprio dinheiro e cobrar resultado sob pena de troca, vai chover de novo, vai morrer de novo, e o discurso vai ser o mesmo de novo. A natureza não matou ninguém em Pernambuco esta semana. Quem matou tem CPF, salário pago pelo morto, e provavelmente já está preparando a próxima campanha com o slogan da reconstrução. Pergunta de novo, agora olhando no espelho. Quem pagou e quem recebeu?

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.