A Caldeira McDermitt, encravada entre Oregon e Nevada, estava ali, quietinha, há dezesseis milhões de anos. Ninguém ligava. Não tinha consultor ambiental sobrevoando, não tinha lobista de Washington alugando jatinho, não tinha geólogo da moda dando entrevista para revista chique. Era apenas um buraco vulcânico extinto, dessas curiosidades geológicas que rendem no máximo uma legenda em livro didático. Aí, de repente, descobrem que o coitado guarda algo em torno de um trilhão e meio de dólares em lítio, o tal metal branco sem o qual a fantasia da transição energética desaba como castelo de areia. E, ó milagre dos milagres, a descoberta cai exatamente no momento em que governos do mundo inteiro decidem, por decreto, que o cidadão precisa abandonar seu carro a combustão e comprar um veículo elétrico cujo preço só fecha com subsídio. A natureza tem um senso de timing impressionante quando o cofre público está aberto.

Convém lembrar a mecânica do truque, porque ela se repete há séculos com a monotonia de uma ladainha. Primeiro, o poder político decreta uma nova virtude obrigatória, dessa vez vestida com fantasia verde. Depois, define quais insumos serão indispensáveis para cumprir a tal virtude. Em seguida, distribui generosamente, à custa do contribuinte, créditos fiscais, financiamentos camaradas, garantias de compra e tarifas protecionistas para quem extrair, processar e vender esses insumos. O resultado é matemático, dispensa adivinhação. Aquilo que estava no chão valendo nada passa a valer um trilhão e meio porque um burocrata, com canetada, transformou um pedaço de pedra em ativo estratégico. Não foi o mercado que precificou. Foi a propaganda do Estado que inflou o balão. E quando o balão estoura, adivinhe quem paga a conta.

Vale insistir na pergunta elementar, aquela que jornalista de gravata raramente faz porque depende do anunciante. Quem ganha com isso? Ganham as mineradoras já posicionadas, que compraram os direitos minerários por uma ninharia antes do anúncio oficial. Ganham os fundos de investimento ligados aos amigos do andar de cima, que sabiam da prospecção meses antes do plebeu ler a notícia. Ganham as montadoras de elétricos que recebem subsídio na produção, subsídio no consumo e ainda choram pedindo mais. Ganham os escritórios de advocacia que vão litigar cada hectare. E perdem, como sempre, três personagens previsíveis: o contribuinte que banca a festa via imposto, o consumidor que paga o preço inflado do carro novo, e o índio paiute local, dono ancestral daquele chão, que descobrirá em pouco tempo que sua reivindicação histórica vale menos que um relatório de impacto pago pela mineradora.

A coisa fica ainda mais saborosa quando se observa o teatro geopolítico montado em torno do depósito. Discursa-se que extrair lítio em solo americano é questão de segurança nacional, porque a China controla a cadeia global do metal e isso seria intolerável. Tradução do palavreado solene: precisamos de dinheiro público para competir com quem subsidia mais barato. É a velha desculpa do protecionismo travestida de patriotismo, fantasia que já serviu para justificar tarifa de açúcar no século dezoito, monopólio de sal no antigo regime e cartel de petróleo no século vinte. Muda o produto, muda o vilão externo, mas o roteiro é idêntico. Cria-se um inimigo conveniente, jura-se que só o Estado pode nos salvar dele, e em seguida distribui-se o butim entre os contratantes habituais. Quem assiste e aplaude está confundindo bandeira com nota fiscal.

Há ainda o detalhe pitoresco da hipocrisia ambiental, esse capítulo que ninguém quer ler em voz alta. O mesmo movimento que durante décadas pregou contra a mineração, contra o impacto em ecossistemas frágeis, contra o envenenamento de lençóis freáticos, agora abençoa a escavação massiva da Caldeira McDermitt porque a causa, agora, é nobre. O ambientalismo que rasgava as vestes diante de uma usina hidrelétrica engole em seco diante de uma cratera escavada por dragline industrial, desde que o produto final entre num Tesla. É a moralidade flexível dos que confundem princípio com conveniência. Os mesmos sábios que juram amar a pachamama vão assinar, sem corar, o licenciamento de uma operação que arrasará a fauna local e contaminará aquíferos que sustentam comunidades inteiras. A consciência tem prazo de validade, e expira sempre que aparece um subsídio gordo na mesa.

O destino dessa história já está escrito, e quem prestar atenção nas anteriores não precisa de bola de cristal. Daqui a uns dez anos, quando o ciclo do lítio se esgotar e a próxima maravilha tecnológica exigir outro mineral mágico, o vulcão estará perfurado, a água envenenada, os paiutes processados, as ações das mineradoras devidamente realizadas em lucro pelos insiders, e o cidadão americano descobrindo na declaração de imposto que financiou toda a brincadeira sem nunca ter sido consultado. O carro elétrico subsidiado terá envelhecido feio, a bateria recém esgotada virará lixo tóxico de difícil reciclagem, e algum especialista contratado pelo governo aparecerá nos jornais explicando, com cara séria, que precisamos urgentemente investir no próximo metal estratégico. O cassino abre, fecha, reabre. Só a banca não muda.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.