A notícia saiu discreta, embalada no papel celofane do entusiasmo científico, mas merece ser lida com a lupa do desconfiado profissional. Pesquisadores de uma universidade americana conseguiram imprimir, em três dimensões, fibras que se comportam como músculos: dobram, torcem, contraem, tudo a partir de variações de temperatura. Em linguagem de feira, fabricaram tecido motor sem precisar de boi, sem precisar de academia, sem precisar de cirurgião. É o tipo de avanço que, em qualquer época normal, faria o sujeito fechar o jornal sorrindo. Vivemos, contudo, tempos em que toda boa notícia traz um boleto escondido no verso.

Vale recuar dois passos antes de aplaudir. Quando o tear mecânico apareceu na Inglaterra, multidões saíram à rua quebrando máquinas porque, supostamente, a tecnologia roubaria empregos. O que ela roubou foi a miséria de quem trabalhava dezesseis horas para comer pão duro. Quando o automóvel desbancou a carroça, ouviu-se o mesmo coro fúnebre, e os únicos prejudicados de fato foram os cocheiros que se recusaram a aprender a dirigir. Toda inovação genuína segue o mesmo roteiro: nasce no laboratório, é xingada pelo conservadorismo de plantão, enriquece a humanidade, e enfim recebe a visita inevitável do fiscal querendo a sua parte. Com o músculo impresso não será diferente. A diferença é que, desta vez, o fiscal chega antes do produto sair da prateleira.

Pense no destino lógico desse tecido sintético. A primeira aplicação séria é a prótese, devolver braço a quem perdeu, mão a quem nasceu sem, mobilidade a quem o acaso amputou. Maravilha, certo? Em tese, sim. Na prática, o aparelho terá de passar por agência reguladora, sofrer reserva de mercado para o fabricante credenciado, esperar parecer de comissão, pagar taxa de registro, ser distribuído por convênio que cobra três vezes o custo real e, ao final, quem precisa do braço espera cinco anos numa fila. O paciente paga duas vezes: paga o imposto que sustenta a burocracia e paga o sobrepreço que a burocracia criou ao limitar a oferta. Toda regulamentação tem um nome no cheque do beneficiário, e nunca é o nome do paciente.

Há também o desfile previsível das comissões de ética que surgirão para decidir, em nome de todos, o que cada um pode fazer com o próprio corpo. Se você quiser comprar um músculo artificial para carregar mais peso na obra, será advertido de que o corpo humano tem limites naturais que precisam ser respeitados, como se respeitar limites naturais fosse precisamente o que fazem o óculos, a vacina, a anestesia e o marca-passo. O argumento conservador contra a melhoria do próprio corpo é sempre o mesmo desde que o primeiro sujeito calçou sandália: você está brincando de deus. Curioso que o mesmo Estado que se acha deus para taxar, regular e confiscar descubra de repente a virtude da humildade quando o assunto é a liberdade do indivíduo sobre a própria carne.

Siga a trilha do dinheiro e o mapa se desenha sozinho. Fundos públicos financiam parte da pesquisa universitária, o que significa que o contribuinte já pagou pelo desenvolvimento. Em seguida, a patente vai para um spin off privado ligado aos mesmos pesquisadores, e o contribuinte paga de novo, agora no preço de varejo, por aquilo que ele mesmo financiou no atacado. Some a isso o lobby das indústrias de prótese tradicional, que tentará empurrar normas restritivas para sufocar o concorrente novo, e o lobby dos sindicatos médicos, que exigirá receita obrigatória para qualquer coisa que se mova. A inovação chega ao consumidor com três camadas de imposto, duas de cartório e uma de moral pública. O que sobra de revolução cabe num envelope.

Ainda assim, vale o otimismo cauteloso. A tecnologia, uma vez no mundo, raramente volta para o tubo de ensaio. Os músculos impressos serão fabricados, copiados, melhorados, vendidos no mercado paralelo se o mercado oficial sufocar, e em vinte anos serão tão banais quanto a lente de contato. A história dos avanços humanos é a história da liberdade individual furando, pela frincha, o cerco do regulador. O que cabe ao leitor lúcido é não confundir o cientista, que entrega um milagre, com o burocrata, que aparece depois fantasiado de salvador para cobrar pedágio no milagre alheio. Quem paga continua sendo você. Quem recebe, como sempre, é o de costume.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.