O estudo foi publicado no Cancer Research Communications e não deixa margem para o tipo de interpretação tortuosa que a burocracia sanitária adora aplicar quando os dados contrariam a narrativa. Adultos que nunca se casaram apresentam risco significativamente maior de desenvolver e morrer de câncer do que os casados. A diferença não é marginal, não é estatisticamente nebulosa, não é aquele tipo de resultado que sobrevive apenas em nota de rodapé. Oitenta e cinco por cento. Para colocar isso em perspectiva: nenhum medicamento oncológico aprovado nos últimos trinta anos, nenhuma campanha de rastreamento precoce, nenhum protocolo de quimioterapia de última geração chega perto desse número como medida preventiva isolada. E o tratamento é gratuito, voluntário, não requer médico, não gera fila no SUS e tem efeito colateral positivo chamado família.
Agora siga o raciocínio até onde ele leva, porque é aí que a coisa fica interessante. Há décadas o orçamento federal despeja bilhões em políticas de saúde pública, campanhas educativas, programas de prevenção ao câncer, distribuição de materiais, contratação de consultores, seminários internacionais, relatórios volumosos que ninguém lê e licitações que todos entendem. Toda essa engrenagem funciona como aquele médico que trata o sintoma enquanto ignora a causa: muito movimento, muito custo, muito prestígio acadêmico e pouco resultado. O que a pesquisa de Miami sugere, com a brutalidade silenciosa dos dados, é que o maior fator de proteção oncológica disponível para a população não precisa de decreto presidencial, não cabe em plano plurianual e não gera cargo comissionado. Isso, para a lógica do Estado, é inadmissível.
A razão pela qual o casamento protege não é misteriosa, embora precise ser dita em voz alta porque virou tabu. O ser humano é, por natureza, um animal que adoece em solidão e prospera em vínculo. Não é romantismo, é biologia, é psicologia, é antropologia de campo. O cônjuge detecta sintomas que o paciente ignora. O cônjuge insiste na consulta que o orgulhoso adiaria por meses. O cônjuge reduz os comportamentos de risco que os solteiros praticam com a liberdade melancólica de quem não tem ninguém esperando em casa. O estresse crônico, fator sabidamente associado à progressão tumoral, encontra no compromisso conjugal um amortecedor que nenhuma política pública consegue replicar artificialmente. E por fim, há a questão do propósito: pessoas com razões para continuar vivas simplesmente lutam mais quando ficam doentes. Isso não é dado fácil de monetizar, e talvez seja por isso que a medicina moderna demorou tanto para encarar de frente.
O silêncio da mídia progressista diante de pesquisas desse tipo não é acidente nem ignorância, é higiene ideológica. Porque se o casamento protege, se a família nuclear é um mecanismo de saúde pública mais eficaz que dezenas de programas governamentais, então trinta anos de desconstrução cultural organizada não foram apenas um equívoco filosófico. Foram um dano sanitário. Cada campanha que ridicularizou o casamento como instituição burguesa ultrapassada, cada novela que normalizou a família dissolvida como estágio superior de emancipação, cada política que tornou o divórcio mais fácil que renovar uma carteira de motorista contribuiu, em alguma medida mensurável, para o aumento do risco oncológico da população. Ninguém vai processar ninguém por isso. Mas o dado está ali, publicado, auditável, esperando que alguém tenha a coragem intelectual de tirar a conclusão óbvia.
O Estado moderno tem uma relação curiosa com tudo aquilo que funciona sem ele. Quando algo resolve problemas humanos sem requerer intervenção, regulação, tributação ou supervisão burocrática, a resposta institucional oscila entre o silêncio e a hostilidade. A família é o exemplo mais antigo e mais evidente desse padrão. Ela precedeu o Estado, precedeu o direito positivo, precedeu a democracia representativa e vai sobreviver a todos eles. As civilizações que a mantiveram sólida prosperaram; as que a corroeram por dentro, por ideologia ou por descuido, pagaram a conta cedo ou tarde, e a conta nunca vem com desconto. O que a Universidade de Miami fez foi, sem querer ou com plena consciência, colocar um número num argumento que a tradição sempre soube fazer qualitativamente. Oitenta e cinco por cento. Guarde esse número. Repita-o na próxima vez que alguém tentar te convencer de que o Estado sabe cuidar melhor de você do que a pessoa que dorme ao seu lado.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.