Enterraram no Rio Grande do Sul um fóssil de uns duzentos e trinta milhões de anos, um réptil pequeno, de bico recurvo feito papagaio, que mastigava vegetação quando ainda nem havia dinossauro para ocupar o centro do palco. A notícia chega empacotada em adjetivos de susto, a tal "comunidade internacional em choque", como se paleontólogo alemão caísse da cadeira ao ver uma ossada brasileira. Não cai. O que surpreende de fato é outra coisa, e essa ninguém conta na manchete: quem pagou a escavação, quem assina o paper, quem sobe no palco do anúncio e quem some da lista de créditos.

O bicho em si é uma pequena maravilha, e ninguém aqui vai fazer pouco da ciência de verdade, aquela que mede, compara e erra até acertar. O réptil com bico de papagaio conta uma história que bilhão de PowerPoint de secretaria de inovação não conta: a vida testa formas, descarta as ruins, guarda as boas, sem precisar de conselho consultivo nem de audiência pública. Duzentos e trinta milhões de anos atrás havia um animal resolvendo o problema de comer planta dura com a elegância de um engenheiro faminto, e hoje precisamos de três ministérios e quatorze pareceres para trocar a lâmpada do corredor.

Agora siga o bilhete verde, porque é aí que a piada fica engraçada. Fósseis assim viram capa de revista, viram verba, viram viagem a congresso, viram cargo de coordenação, viram edital, viram rodapé de prestação de contas onde se lê, com a cara mais séria do mundo, que milhões foram aplicados em "valorização do patrimônio paleontológico nacional". Tradução honesta: um punhado de gente séria, que acordou cedo na lama gaúcha por salário de professor, faz o trabalho de verdade; outro punhado, de terno e ar condicionado, faz a foto, o discurso e a ficha de empenho. O bicho, coitado, não tem como protestar contra ser transformado em pretexto orçamentário.

É que a coisa funciona assim faz tempo, não é invenção nossa. Quando apareceu o primeiro dinossauro de museu vitoriano, o lorde que bancou a escavação virou herói, o trabalhador que lascou a picareta por dez libras mensais virou nota de rodapé, e o bicho virou ingresso vendido a preço de gim. Mude o figurino, troque a cartola pelo crachá de servidor, e o enredo é o mesmo. O fóssil não pertence ao cientista que o achou, nem ao peão que o limpou, nem ao fazendeiro em cuja terra ele descansava; pertence ao ente abstrato que cobra imposto para "proteger" aquilo que ninguém estava atacando.

A moral silogística é simples e incômoda. Se a Terra produziu, sem ajuda de comitê gestor, formas de vida tão engenhosas durante centenas de milhões de anos, então a presunção de que nada de valioso acontece sem tutela oficial é falsa; e se é falsa, toda a retórica que transforma descoberta científica em conquista governamental é propaganda vestida de jaleco. O réptil de bico de papagaio não esperou autorização da ANVISA pré-cambriana para existir. Só os humanos conseguiram inventar um sistema em que até desenterrar osso de bicho morto exige carimbo, taxa e selo holográfico.

Fica a cena final, que merece ser saboreada. Um animalzinho que atravessou extinções em massa, placas tectônicas rasgando continentes, meteoros, eras glaciais, e o que finalmente o desenterra é uma civilização que não consegue manter luz acesa sem subsídio cruzado e que cobra imposto sobre o sanduíche do paleontólogo. O bico de papagaio, petrificado, parece rir. E tem todo o direito. Quem paga a conta dessa farsa somos nós, os vivos; quem recebe os aplausos é sempre o mesmo circo de sempre.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.