Oitenta e quatro toneladas de rede de pesca foram puxadas do Pacífico e despejadas dentro de um experimento de pavimentação no Havaí. A imagem é irresistível, quase litúrgica: o oceano devolve o que recebeu, cientistas de jaleco recolhem o pecado plástico da humanidade, e tudo isso vira a estrada por onde o turista vai dirigir seu carro alugado até a próxima praia instagramável. É a parábola perfeita da era da redenção ambiental por decreto. E como toda parábola contemporânea, ela funciona porque ninguém faz a pergunta que importa, que é simples e antiga: quem está pagando essa virtude reluzente, e quem está embolsando o cheque no fim do mês?
Comece pela aritmética básica, esse hábito incômodo. Asfalto convencional é, hoje, uma das tecnologias mais bem otimizadas que a engenharia civil produziu em um século. Custa o que custa porque o petróleo subproduto é abundante, o processo é maduro, a logística é conhecida. Triturar polímero marinho contaminado por sal, biofilme, metais pesados e sabe lá Netuno o que mais, transportar esse material desde o atol até a usina, separar, processar, estabilizar e misturar com o ligante para então rodar testes de durabilidade comparativa, é uma operação que custa, no mínimo, três a dez vezes mais por tonelada útil. Não existe milagre químico. Existe conta. E a conta, naturalmente, não aparece no comunicado de imprensa enfeitado de tartarugas.
Aqui entra o truque velho, que já se repetiu mil vezes desde os tempos em que reis chamavam de bem comum aquilo que era apenas o bem dos amigos do rei. O projeto não se sustenta no mercado, porque se sustentasse alguma empresa privada já teria patenteado e estaria vendendo asfalto de rede de pesca em Singapura. Logo, precisa de subsídio. O subsídio precisa de uma narrativa. A narrativa é construída com cientistas fotogênicos, ONGs ambientais cuja sobrevivência depende exatamente desse tipo de pauta, agências federais americanas com orçamento a gastar antes que o Congresso corte, e construtoras locais que descobriram que pintar a empresa de verde rende contratos que pintar de qualquer outra cor não rende mais. Cada um desses atores tem nome, CNPJ equivalente, e linha de receita. Nenhum deles vai aparecer na manchete bonitinha.
Repare na estrutura, porque ela é sempre a mesma. Identifica-se um problema real, no caso o lixo marinho, que de fato existe e de fato é uma chateação. Em seguida, em vez de atacar a causa, que é despejo descontrolado por frotas pesqueiras industriais subsidiadas por meia dúzia de governos asiáticos, propõe-se uma solução cara, complicada e que cria dependência permanente do contribuinte. O pescador que rasga a rede e abandona no oceano não paga nada. O cidadão que dirige no asfalto pavimentado com a rede do pescador paga duas vezes: uma na conta de impostos que financia o programa, outra no pedágio mais caro porque a manutenção do tal asfalto experimental, que ninguém ainda sabe se aguenta dez verões, será cobrada de quem usa. A externalidade não foi internalizada, foi transferida. Do criminoso ambiental original para o motorista honesto.
O silogismo é deselegante de tão claro. Se a solução fosse economicamente viável, o mercado já a teria adotado sem precisar de cientistas posando para a câmera. Se ela não é viável, alguém precisa pagar a diferença entre o custo real e o custo do asfalto comum. Esse alguém, na história universal dos programas piloto verdes, nunca é o cientista, nunca é a ONG, nunca é a construtora. É sempre o sujeito anônimo que acorda às seis da manhã e tem desconto na folha de pagamento sem entender direito o porquê. A virtude é privatizada em forma de contrato, prêmio acadêmico e foto institucional. O custo é socializado em forma de imposto e tarifa.
O Havaí virou laboratório não porque o vulcão inspire pesquisa de ponta, mas porque ali coincidem três coisas saborosas para esse tipo de empreitada: legislação ambiental ultrarrígida que cria mercado cativo, fluxo turístico bilionário que paga taxa sem pestanejar, e uma base eleitoral progressista que aplaude o gesto sem nunca conferir a planilha. É o ecossistema perfeito para o experimento, e a palavra experimento aqui tem dois sentidos. O científico, anunciado. E o político, escondido, que é testar quanto o contribuinte aguenta engolir em nome do planeta antes de começar a perguntar para onde foi o dinheiro. A resposta, como sempre, está no bolso de quem assinou o contrato. Basta ter a paciência de procurar, e a coragem de não desviar o olhar quando encontrar.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.