Enquanto a dona de casa em Teresina recalcula o carrinho do supermercado pela terceira vez antes de passar no caixa, e o motorista de aplicativo em São Paulo desliga o ar condicionado para economizar combustível, o Congresso Nacional aprova, sem muita cerimônia e com ainda menos vergonha, um fundão eleitoral que orbita os cinco bilhões de reais para o ciclo de 2026. Some a isso o fundo partidário, some os horários gratuitos que de gratuitos não têm nada (o contribuinte paga em renúncia fiscal), some as emendas de relator ressuscitadas com novo batismo, e você tem diante de si não uma democracia, mas uma confraria que aprende rapidamente a transformar a urna em caixa eletrônico.
O truque linguístico merece aplauso. Chamam de financiamento público de campanha o que qualquer pessoa honesta descreveria como apropriação compulsória de recursos alheios para perpetuar no poder exatamente aqueles que decidem quanto desses recursos serão apropriados. É o mesmo raciocínio do raposo que vota no regulamento do galinheiro, com a diferença estética de que agora o raposo usa terno de linho e aparece em comissão parlamentar falando em fortalecimento das instituições. A matemática, contudo, é impiedosa e indiferente ao vocabulário: cada real desse fundo saiu, antes, da padaria do bairro, do frete do caminhoneiro, do suor do trabalhador que acha que está pagando saúde e educação.
Siga o rastro do dinheiro e o espetáculo se torna mais pornográfico. Do fundão, parcela robusta escorre em linha reta para marqueteiros bilionários que cobram cachês de estrela de Hollywood, gráficas amigas que imprimem santinho a preço de manuscrito iluminado medieval, institutos de pesquisa que milagrosamente acertam a intenção do contratante, consultorias digitais que criam exércitos de perfis fantasmas, e advogados eleitorais cujo faturamento cresce na proporção exata da judicialização da política. Nada disso retorna ao eleitor em forma de hospital, escola ou estrada. Retorna em forma de outdoor, jingle e reunião de campanha com coxinha.
Houve um tempo, na Roma que já nascia doente, em que os tribunos da plebe compravam fidelidade popular com pão e circo pagos pelo erário. A fórmula é tão antiga quanto o vício humano de consumir aquilo que não produziu. O que mudou no modelo contemporâneo foi apenas a sofisticação do envoltório: substituímos o pão pelo marketing digital, o circo pela live patrocinada, e o erário romano pelo cidadão que assina declaração de imposto de renda acreditando piamente que está contribuindo para o bem comum. A natureza da operação, porém, é idêntica. Uma classe política se autofinancia com recursos extraídos sob ameaça, e chama isso de serviço à pátria.
A ironia mais aguda está no discurso dos beneficiários. Os mesmos parlamentares que engordam o fundão sobem à tribuna para lamentar o custo do Estado para o cidadão, criticar gastos públicos no vizinho de bancada e exigir austeridade do gasto com o servidor da ponta, aquele que limpa hospital, ensina criança e fiscaliza fronteira. A austeridade, no dicionário prático de Brasília, é sempre para os outros. Para o andar de cima, o orçamento é elástico, flexível, e milagrosamente encontra bilhões quando o assunto é a própria sobrevivência política. Trata se de uma prestidigitação tão grosseira que só funciona porque o público aprendeu, por cansaço ou por medo, a desviar o olhar.
Nenhuma dessas cifras seria possível, convém lembrar, sem a cumplicidade silenciosa de uma imprensa que também bebe da teta estatal. Publicidade oficial, verbas de bancos públicos, contratos com estatais, certificações digitais de conteúdo combatedor de desinformação financiadas com dinheiro público: a cadeia inteira de formação de opinião se tornou dependente do mesmo orçamento que deveria fiscalizar. Quem paga o almoço raramente critica o cozinheiro, e quando o faz, critica o tempero, nunca a receita. O resultado é um debate público anestesiado, em que o escândalo dos cinco bilhões é tratado com a mesma temperatura editorial de uma nota sobre congestionamento na Marginal Tietê.
Diga se, em favor da franqueza, que nada disso é novidade e nada disso é acidente. É arquitetura. Um regime que retira compulsoriamente parcela crescente da renda do trabalhador, que criminaliza a evasão mas sacraliza o desperdício, que reforma tributo para cobrar mais e nunca para gastar menos, que implementa moeda digital para rastrear cada centavo do particular enquanto opacifica cada centavo do coletivo, é um regime que não foi desenhado para proteger o cidadão. Foi desenhado para domesticá lo. O fundão eleitoral é apenas a cereja, visível e ostensiva, de um bolo que o eleitor assa sem nunca ser convidado a prová lo.
No dia da eleição, o brasileiro entrará na cabine convencido de que exerce um ato soberano. Exercerá, de fato, um ritual cujo roteiro, figurino, iluminação, trilha sonora e elenco foram pagos, com seu próprio dinheiro, pelos atores que ele supostamente escolherá. A verdadeira urna, aquela onde a decisão importa, foi lacrada muito antes, em plenário, quando se aprovou o tamanho do saque. O voto é livre, o preço da liberdade é que já veio descontado em folha.
A análise e opinião são do O Algoz.