Existe uma estatística silenciosa que ninguém divulga em horário nobre: o brasileiro médio trabalha quase cinco meses por ano apenas para sustentar a máquina pública, e o que sobra disso, depois de comer, morar e pagar a escola dos filhos, mal dá para encher o tanque de um sedã popular. Mesmo assim, num canto improvável do mercado, sobreviveu uma espécie em extinção: o esportivo usado por cinquenta mil reais. Carros que um dia custaram o triplo, o quádruplo, e que hoje, depreciados pelo tempo e pelo medo do dono de continuar pagando manutenção, aparecem nos classificados como pequenos atos de rebeldia mecânica contra a uniformização cinza dos SUVs financiados em setenta e duas vezes.
O fato concreto é esse: por cinquenta mil reais, ainda se compra um cupê com tração traseira, motor que canta, câmbio que conversa com o pé direito, e a sensação rara de que dirigir não é simplesmente deslocar massa do ponto A ao ponto B sob vigilância de três câmeras por quilômetro. É pouco dinheiro para muita engenharia, justamente porque o mercado punir o prazer virou política pública não declarada. Carro esportivo paga IPVA mais alto, seguro mais caro, combustível premium, e ainda carrega o estigma social do sujeito que ousou trocar o crossover família pelo brinquedo solteiro. A culpa, vendida no atacado pelos púlpitos da virtude ambiental, faz o resto do trabalho.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Cada quilômetro rodado nesse cupê de cinquenta mil rende ao Estado um pedaço gordo do litro de gasolina, no qual quase metade é tributo empilhado em sigla criativa. Some a isso o licenciamento anual, o DPVAT ressuscitado em nova fantasia, a taxa do detran, a multa eventual cobrada por velocidade que em qualquer estrada europeia decente seria considerada timidez de catequista. O comprador acha que está pagando pelo carro; na verdade está alugando, em prestações vitalícias, o direito provisório de usá-lo entre cancelas eletrônicas. O dono real do veículo é quem emite a guia, não quem segura o volante.
Há uma lógica antiga e desconfortável aqui. Sempre que uma sociedade decide que prazer individual é suspeito, surge uma casta de moralistas profissionais para taxá-lo, regulá-lo e, quando possível, proibi-lo em nome de algum bem coletivo abstrato. Foi assim com o vinho em certas repúblicas antigas, com o tabaco no século passado, com a carne vermelha agora, e é exatamente assim com o automóvel que faz barulho e acelera. O argumento muda de roupa, a estrutura é a mesma: quem decide o que é supérfluo nunca paga a conta da decisão. Decide-se em gabinete climatizado, com motorista oficial esperando na porta, que o cidadão comum precisa andar de bicicleta elétrica para salvar o planeta.
O que esses cinco esportivos baratos representam, então, é menos uma oportunidade de consumo e mais um ato simbólico. Comprar um cupê depreciado é dizer, em linguagem de aço e borracha, que ainda existe um espaço da vida que não foi inteiramente colonizado pela planilha do contador público. É reivindicar que carro pode ser objeto de afeto, e não apenas vetor de tributação. É lembrar que liberdade, mesmo quando reduzida ao formato modesto de um motor seis em linha de segunda mão, continua sendo a única mercadoria que o poder nunca consegue produzir, apenas restringir. Quem ainda enxerga isso, e tem cinquenta mil sobrando depois do massacre fiscal anual, está fazendo um investimento que nenhum analista financeiro entende.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta. Quem paga? O sujeito que junta moedas durante anos para finalmente ter um carro que sorri quando ele pisa no acelerador. Quem recebe? O fabricante original, que já lucrou na primeira venda; o revendedor, que vive de margem; e principalmente o Estado, que cobra pedágio em cada etapa da existência do veículo, da fábrica ao desmanche, sem nunca ter projetado um parafuso. O prazer ao volante é tolerado porque ainda é tributável. No dia em que deixar de ser, será proibido em nome da segurança, do clima, ou da próxima virtude inventada para justificar o confisco.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.