O cineasta israelense Nadav Lapid foi cordialmente convidado a sumir do FID Marseille, festival que rola entre 7 e 12 de julho na França, depois que um bando de diretores adeptos do boicote cultural a Israel avisou que ia ralar caso ele pisasse no tapete. A direção do evento, num exercício notável de eufemismo, alegou que a "presença dele comprometeria o equilíbrio da programação". Tradução do francês para o português dos mortais: cedemos à chantagem, mas vamos vender isso como sensibilidade curatorial. O sujeito, diga se de passagem, é crítico ferrenho do próprio governo israelense, ganhou prêmio em Cannes esculhambando Netanyahu, e ainda assim foi defenestrado porque carrega o passaporte errado. O critério não é mais o que o artista pensa, é de qual tribo ele nasceu. Isso já tem nome na história, e não é dos mais simpáticos.
Convém perguntar quem paga essa brincadeira. O FID Marseille mama em subsídio público francês, dinheiro do CNC, da prefeitura, da região, do Ministério da Cultura. Ou seja, o pedreiro de Marselha, o garçom de Lyon, a costureira de Toulouse, gente que talvez nunca tenha entrado num cinema de arte na vida, está bancando, via imposto compulsório, um clube privado de cineastas que decidiu que certas nacionalidades são impuras. Não é caridade voluntária, não é mecenato, é confisco transformado em palanque moral. Quando o financiamento é forçado, o financiador vira refém das obsessões da curadoria. O contribuinte francês paga para ser ofendido em seu nome, e ainda recebe lição de virtude de bônus.
O argumento curatorial é de uma desonestidade lapidar. Dizem que mantiveram o convite "se houvesse condições", o que equivale ao gerente do restaurante avisar ao freguês que ele pode entrar, desde que os outros clientes não façam barraco. A coragem institucional dos festivais europeus virou esse algodão doce: defendem a liberdade de expressão até o momento em que defender custa alguma coisa, e aí transferem o custo para a vítima do boicote. Não foi a direção do evento que excluiu, foi a "situação". Não foi covardia, foi "cuidado com o coletivo". O verbo passivo é o último refúgio do canalha bem educado. Toda vez que uma instituição se esconde atrás do impessoal, procure quem ela está protegendo, e quem ela está jogando aos lobos.
Há aqui uma simetria deliciosa que ninguém quer enxergar. Os mesmos círculos culturais que, durante décadas, fizeram do anti boicote o seu hino, que esperneavam quando alguém ousava cancelar um artista soviético em plena Guerra Fria ou um músico sul africano no apartheid, hoje aplicam o boicote com sorriso no rosto e selo de progressismo. A régua mudou conforme mudou a conveniência ideológica. O princípio, aquele troço antiquado segundo o qual o sujeito vale pelo que faz e não pela bandeira que carrega, foi jogado na lata. Sobrou a tribo. E quando o critério vira tribal, o passo seguinte é sempre o mesmo, basta abrir qualquer manual de história do século vinte na página certa.
O mais cômico, no entanto, é o silogismo que ninguém formula em voz alta. Se boicotar israelenses por serem israelenses é gesto legítimo de protesto político, então boicotar palestinos por serem palestinos, russos por serem russos, iranianos por serem iranianos, também deveria ser. Nenhum desses festivais aceitaria por um segundo a inversão. Logo, o que vige não é princípio, é preferência. E preferência travestida de princípio tem um nome técnico que a curadoria francesa conhece muito bem, embora finja que não. A regra moral que só vale contra um lado não é regra moral, é arma. E arma subsidiada pelo contribuinte é o pior tipo de arma, porque dispara em nome de quem nem foi consultado.
Sobra a pergunta de sempre, quem ganha com a encenação. Ganham os diretores boicotadores, que somam currículo de ativismo sem perder cachê. Ganha a direção do festival, que se livra da treta e mantém o orçamento público intacto. Ganha o Ministério da Cultura, que sinaliza virtude sem gastar capital político. Perde o cineasta desconvidado, perde o público que não vai ver o filme, perde o contribuinte francês que financia o próprio ridículo, e perde aquela ideia velha e cansada de que a arte serve para furar bolhas, não para reforçá las. No fim, o festival vai abrir com discursos comovidos sobre diversidade, pluralidade e diálogo. E ninguém vai rir, porque a piada já está paga, com nota fiscal.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.