O ex-governador do Ceará, aquele mesmo que tenta a Presidência desde que o real ainda era novidade, subiu num evento do PSDB em São Paulo para anunciar a salvação nacional pela enésima vez. O figurino é novo, o discurso é o de sempre, e o partido que o abriga agora é justamente o que ocupou o Planalto por dois mandatos consecutivos antes de virar nanico de sigla. A receita do milagre se chama "ruptura", palavra mágica que serve para tudo e não significa nada, especialmente quando dita por alguém que mama no orçamento público desde os anos noventa.
O diagnóstico, ele faz questão de repetir, é que a população anda distraída por "coisas de ódio e paixão". Repare na sutileza retórica do prócer: o povo é distraído, ele é o lúcido; o povo se emociona, ele raciocina; o povo se divide, ele unifica. É a velha estrutura do iluminado de plantão que desce dos píncaros da consciência crítica para explicar aos broncos por que estão errados em tudo o que pensam. A premissa é irretocável, desde que aceitemos a premissa anterior, que é a de que existe alguém capaz de saber, melhor do que cada brasileiro, no que cada brasileiro deveria estar pensando.
Pergunta singela, daquelas que estragam jantar de político: quem financia essa cruzada anti-distração? Não se monta evento em São Paulo, com palanque, microfone, cobertura de imprensa amiga e logística de partido, com dinheiro caído do céu. Os tucanos, mesmo definhando, ainda tomam fundo partidário gordo do contribuinte, e o ex-governador, mesmo fora do cargo, segue colhendo penduricalhos públicos que dariam para sustentar três famílias de classe média. A "ruptura" é financiada exatamente por aquilo contra o que ela finge se insurgir, num arranjo tão velho quanto a república: o palanque é pago por quem trabalha, e quem fala no palanque é quem nunca precisou.
Há uma lógica de ferro nessa encenação que merece desmontagem. Se o problema do Brasil é a polarização, e se a solução é a ruptura, alguém precisa explicar como se rompe sem polarizar, ou seja, como se faz tortilha sem quebrar ovo. A verdade prosaica é que "ruptura" virou sinônimo de "me elejam de novo", e "polarização" virou xingamento que se aplica a todo mundo que discorda do palpiteiro da vez. O truque funcionou nas eleições de 1989, de 1998, de 2002, de 2006, de 2018 e de 2022, e o eleitor que ainda cai precisaria de um exame neurológico, não de um candidato.
O detalhe mais saboroso é o cenário. O ninho escolhido foi o partido que prometeu modernizar o Brasil com privatizações tímidas, manteve a estrutura intacta do confisco tributário, deixou a inflação domada à custa de juro estratosférico que enriqueceu banqueiro e empobreceu produtor, e saiu de cena reclamando que o eleitor era ingrato. Agora, esse mesmo partido, reduzido a clube de ex-celebridades, hospeda o eterno aspirante para juntos pregarem contra a polarização que eles próprios pavimentaram durante trinta anos de poder e cumplicidade com o adversário simbiótico do PT. Polarização, no fim, é o nome que se dá ao teatro quando um dos atores resolve faltar ao ensaio.
O eleitor brasileiro, que de bobo não tem nada apesar do que dizem dele os palanques, deveria fazer a única pergunta que importa diante de qualquer profeta da renovação: quem ganha com essa pregação e quem paga a conta? A resposta, monotonamente repetida desde que existe república, é sempre a mesma. Ganha quem fala. Paga quem cala. E quem chama o povo de distraído costuma ser exatamente aquele que mais lucra com a tal distração.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.