Vinte e dois milhões de reais em tijolo nobre na Oscar Freire, três andares empilhados como bolo de casamento, e a explicação oficial cabe num parágrafo de assessoria: foi a empresa que comprou, foi negociado direto com a construtora, está tudo nos conformes. O senador do Piauí, terra onde o salário mínimo ainda é horizonte distante para a maioria, adquire um triplex que custa o equivalente a setecentos anos de trabalho de um trabalhador médio brasileiro. E pede, com a serenidade de quem já viu essa novela passar mil vezes, que o público engula a história como se fosse natural um servidor público acumular fortuna na velocidade de um traficante de Wall Street.

A pergunta que ninguém da imprensa palaciana faz, porque seria deselegante, é a única que importa: de onde vem o dinheiro da CNLF Empreendimentos Imobiliários? Empresa não brota do chão como cogumelo depois da chuva. Empresa fatura porque alguém compra o que ela vende, ou porque alguém aluga o que ela detém, ou porque alguém empresta achando que vai receber de volta. E quando o dono da empresa passou as últimas três décadas dentro do aparelho estatal, distribuindo cargos, votando orçamento, presidindo partido governista em quatro presidências diferentes, a coincidência entre carreira política e ascensão patrimonial deixa de ser coincidência e vira regra de três.

Há um truque retórico antigo, herdado dos cortesãos de Versalhes, que consiste em separar a pessoa física do agente público como se fossem dois inquilinos diferentes do mesmo corpo. O senador vota leis, o empresário compra triplex, e os dois nunca se cumprimentam no corredor. Convenientíssimo. Só que o eleitor, esse personagem incômodo que ainda existe nos intervalos das eleições, sabe perfeitamente que cadeira no Senado não é estágio, é trampolim. O sujeito entra pobre e sai dono de meio bairro nobre, e quer que a gente acredite que foi tino comercial. Tino comercial é coisa que se mede no risco do mercado, não no monopólio da caneta.

O imóvel está em nome da empresa, dizem, como se isso encerrasse o assunto. Não encerra. Apenas muda o cofre. A pessoa jurídica é a fantasia de Halloween predileta de quem precisa esconder a pessoa física sem perder o controle do bem. Paga menos imposto, blinda contra herança litigiosa, dilui rastros e ainda permite ao sujeito morar no apartamento da empresa como se fosse hóspede de luxo eterno. Truque velho como a Lei das Doze Tábuas, apenas com nova roupagem cartorial. O contribuinte que paga ITBI no apertamento financiado em trinta anos olha aquilo e entende, no fundo da alma, que está em um jogo de cartas marcadas.

O verdadeiro escândalo nem é o triplex. O escândalo é a normalidade com que isso desfila. Em qualquer república que se respeite, um parlamentar que multiplica patrimônio por cem durante o mandato seria objeto de investigação automática, com inversão do ônus da prova, porque servir ao público é serviço, não é mina de ouro. Aqui, vira nota de pé de página, desmentido protocolar, e na semana seguinte o noticiário já está discutindo se a primeira-dama trocou de cabeleireiro. A imprensa cansa, o Ministério Público engasga, o eleitor esquece, e o triplex permanece. Lei da gravidade política aplicada ao Brasil.

Quem paga essa conta? O mesmo de sempre. O sujeito que acorda às cinco da manhã, paga imposto sobre o pão, imposto sobre o ônibus, imposto sobre a conta de luz, imposto sobre o salário que mal sobra, e financia, sem saber, a metragem nobre dos seus algozes. Quem recebe? O nobre senador, suas empresas, seus filhos, seu cartório de fachada, sua advocacia amiga e a construtora que vendeu o triplex sabendo perfeitamente para quem estava vendendo. Negócio fechado, escritura lavrada, cidadão lesado. E ainda mandam aplaudir.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.