O presidente do Progressistas pegou o avião, ajeitou a gravata e foi a São Paulo pedir ao governador Tarcísio de Freitas que ajude a costurar o comando da federação no estado mais rico da federação. A cena é descrita pelos jornais como articulação política, palavra solene que serve para embrulhar o que, traduzido para o português dos mortais, é apenas a divisão antecipada de cargos, tempo de televisão, fundo eleitoral e cadeiras no próximo governo. O anúncio, dizem, sai na semana que vem. Como se a data tivesse alguma importância diante da liturgia eterna do toma lá dá cá.

Convém parar um instante e perguntar a coisa elementar que ninguém pergunta. Quem paga essa festa de noivado entre legendas? O eleitor médio, que assina contracheque com desconto na fonte, custeia o fundo partidário, banca o fundo eleitoral, sustenta a estrutura de gabinetes, assessores, motoristas e a gororoba toda que essa gente chama carinhosamente de partido. Quem recebe? Os mesmos de sempre. Os caciques que se revezam há trinta anos no jogo de cadeiras, mudando de sigla como quem troca de camisa de time, mas jamais abrindo mão da bola, do juiz e do estádio. Federação aqui não é família, é cartel.

O raciocínio é desconcertante de tão simples. Se duas premissas valem, a conclusão é inevitável. Primeira premissa, o partido existe, em tese, para representar uma visão de mundo perante o eleitor. Segunda premissa, o que está em pauta na conversa não é nenhuma visão de mundo, é a aritmética bruta de quem fica com qual fatia da máquina pública estadual e federal. Logo, o partido, no sentido em que a propaganda oficial nos vende, simplesmente não existe. O que existe é uma sociedade de quotistas disputando dividendos pagos pelo contribuinte. Chame isso pelo nome correto e metade do encanto evapora.

A imprensa palaciana ainda insiste em narrar essa cena com a gravidade de uma encíclica. Fala em direção nacional, em definição estratégica, em projeção de cenários, como se houvesse ali algum mistério teológico a ser decifrado. Não há. É balcão. E balcão, por mais antigo que seja, continua sendo balcão, ainda que o atendente use terno italiano e fale em voz baixa. A grande conquista cultural do regime atual foi convencer o brasileiro de que o trottoir político merece tratamento de sala de aula de ciência política. Não merece. Merece ridículo, e do bom.

O detalhe saboroso é o papel de fiador atribuído ao governador paulista, sujeito que construiu a própria marca pública vendendo gestão técnica e antipetismo, e que agora é convidado a abençoar a costura entre legendas que viveram, vivem e viverão de qualquer governo, de qualquer matiz, desde que a torneira do orçamento permaneça aberta. Se aceita o convite, vira sócio. Se recusa, vira inimigo. A elegância da chantagem está em não precisar ser dita em voz alta. Os participantes da mesa entendem o roteiro de cor, ensaiado em décadas de república patrimonialista que se faz passar por democracia representativa.

Resta ao leitor a velha pergunta, aquela que abre e fecha qualquer análise honesta dessa fauna. Quem paga, quem recebe? Você paga, eles recebem. E na semana que vem, quando o anúncio sair com fanfarra e os comentaristas se debruçarem sobre o tabuleiro como se fosse xadrez, lembre-se de que o tabuleiro é seu, as peças são suas, o tempo gasto na partida é seu, e o único papel reservado a você nesse jogo é o de financiador silencioso de um clube ao qual jamais será admitido como sócio.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.