A notícia chega com a leveza dos assuntos de almoço em família. A deputada Clarissa Tércio, do PP pernambucano, confirma que o nome dela tem sido "citado" para ocupar a cadeira de vice numa chapa encabeçada pelo senador Flávio Bolsonaro. Note o verbo: citado. Como quem comenta o tempo. Nada de primárias, nada de debate programático, nada de sinal mínimo de que o eleitor tenha sido consultado sobre quem gostaria de ver disputando o cargo mais poderoso de um país de duzentos milhões de pessoas. O trono se arranja na antessala, e o povo recebe o comunicado depois, impresso em papel-jornal, para fingir que participou.
Há um detalhe que ninguém quer enunciar em voz alta, mas que paira sobre a cena como perfume barato em velório. Flávio é senador porque é filho. Essa é a premissa. A menor. A conclusão, inevitável, é que a candidatura presidencial que se cogita não nasce de uma trajetória construída, mas de uma herança transferida. A república, que nasceu para enterrar o princípio dinástico, descobriu que bastava trocar coroa por terno e cetro por microfone para reencenar a mesma peça. Muda o figurino, mantém-se o enredo. E o eleitor, esse figurante permanente, aplaude nos momentos em que o telão manda aplaudir.
Siga o dinheiro, que a paisagem fica mais clara. A vaga de vice numa chapa competitiva não é um prêmio de consolação, é um ativo financeiro de alta liquidez. Significa fundo partidário, tempo de televisão, acesso a emendas, indicação de cargos, poder de negociação em ministérios futuros. O PP pernambucano, que abriga a deputada, sabe exatamente quanto vale estar ancorado no sobrenome certo na hora certa. O cálculo não tem nada de ideológico e tudo de contábil. O que se discute em reuniões fechadas não é o projeto de país, é a planilha de espólio de uma eventual vitória, dividida em cotas antes mesmo de a urna abrir.
E é aqui que a comédia vira farsa. Porque enquanto se anuncia essa composição com ar de novidade, o que se vê é a repetição do vício nacional mais antigo, o de confundir oposição com substituição. Troca-se um clã por outro, uma dinastia por outra, um carimbo por outro, e a máquina que mastiga o contribuinte segue rodando sem tropeço. A legenda muda, a cor da camiseta muda, o discurso no palanque muda meia palavra. O que não muda nunca, porque não pode mudar sem que a festa acabe, é o desenho do aparelho que suga, redistribui entre os apadrinhados e devolve, ao pagador, a conta e a promessa de que na próxima será diferente.
O humor ácido da história é que tudo isso se apresenta com a pompa de gesto republicano. Fala-se em "fortalecer a chapa", em "ampliar a representatividade", em "consolidar o campo", vocabulário de feira livre disfarçado de ciência política. Traduzindo do dialeto de Brasília para o português dos mortais: arrumaram um nome que aquieta ala regional, agrada dirigente partidário e cumpre cota visual. Estratégia de marketing, não de governo. Se a candidata vice tivesse sido escolhida por mérito programático demonstrado, isso teria sido dito em primeiro lugar. Como não foi, sabemos o que foi.
Resta perguntar, e essa pergunta nunca envelhece, quem paga essa encenação toda. Paga o sujeito que levanta às cinco, encara ônibus lotado, entrega trinta por cento do salário em tributos visíveis e outros tantos em tributos camuflados no preço do pão, e depois é convidado a escolher, a cada quatro anos, entre herdeiros de sobrenome célebre que se alternam no poder sem jamais devolver um centímetro do território que o Estado ocupou sobre a vida dele. O resto é ruído. O resto é a conversa da sala de reunião vazando para o noticiário, enquanto o eleitor, do lado de fora, continua pagando o aluguel da própria servidão com um sorriso cansado no rosto.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.