Sexta-feira, manhã clara na Barra da Tijuca, e os agentes da Polícia Federal estacionam em frente a um condomínio de luxo para visitar a residência do ex-governador Cláudio Castro. A operação se chama, com aquele humor involuntário que só a burocracia brasileira produz, Sem Refino. O nome é honesto, o que é raro. Nada aqui foi refinado. Tudo parece feito no atacado, no improviso, na pressa de quem sabe que o relógio política tem corda curta e a janela de oportunidade para se servir do erário é estreita.
Convém recordar a aritmética básica antes de qualquer indignação seletiva. Um governador de estado, mesmo somando salário, verba de gabinete e penduricalhos legais, não acumula patrimônio compatível com endereço de jogador de futebol da seleção em três ou quatro mandatos juntos. Quando o cofre privado de um agente público começa a parecer com o saldo de um exportador de commodities, a explicação geralmente está fora dos contracheques e dentro daquele território brumoso onde despachos viram dinheiro, onde assinatura vira ativo, onde a caneta é, na verdade, a única ferramenta produtiva que aquele homem jamais empunhou na vida.
O Rio de Janeiro funciona, há décadas, como um laboratório a céu aberto daquilo que acontece quando se entrega o monopólio da força e da regulamentação econômica a quadrilhas com mandato. Os ladrões de antigamente furtavam carruagens nas estradas e morriam de tuberculose aos quarenta. Os de hoje despacham em palácio, dão entrevista coletiva, condecoram bispos e, quando finalmente são alcançados, posam de perseguidos políticos enquanto contam a prataria que ainda sobrou na adega. A diferença entre o salteador medieval e o governador moderno é puramente estética. O primeiro pedia a bolsa. O segundo cria a taxa, vota a isenção, libera o refino e cobra pedágio em cada vírgula do processo.
Siga o caminho do óleo, que neste caso é literal. Toda operação batizada com nome de combustível costuma desembocar no mesmo lugar: contratos de distribuição, ICMS manipulado, autorização administrativa que vale ouro porque a regulamentação criou artificialmente a escassez da autorização. Onde existe licença, existe corretor de licença. Onde existe corretor, existe propina. Onde existe propina, existe um sujeito de gravata explicando em rede nacional que confia plenamente nas instituições, no devido processo legal e na presunção de inocência. Traduzindo do dialeto político para o português dos contribuintes: que o silêncio se mantenha enquanto os advogados trabalham.
E aqui mora a piada que ninguém ri. O cidadão que paga combustível a quase oito reais o litro, que sustenta a Petrobras estatizada, que financia a fiscalização da ANP, que custeia o salário do governador, do delegado, do juiz e até do agente que bate à porta do condomínio, esse mesmo cidadão é tratado como espectador. Vê o espetáculo pela televisão como quem assiste a um folhetim alheio, sem perceber que é ele o produtor executivo de tudo aquilo. Cada nota fiscal de posto, cada centavo de imposto embutido, cada reajuste tarifário é um ingresso involuntário comprado para a peça em que o protagonista, vestido de paletó italiano, sai algemado da própria sala de estar.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise séria do tema. Quem pagou pela mansão da Barra, pelos carros na garagem, pelas viagens que ainda vão aparecer nos extratos? E quem recebeu, em troca, o privilégio de operar sem refino dentro de um sistema desenhado para que tudo passe por refinaria estatal? A resposta, quando vier, não será novidade. Será apenas a confirmação de que o Estado, esse senhor solene que jura proteger o povo, continua sendo o único negócio do país onde o sócio minoritário trabalha, paga e cala, enquanto o majoritário assina, embolsa e, eventualmente, vai dar entrevista da porta de casa dizendo que está tranquilo.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.