Na manhã desta sexta-feira, 15, a Polícia Federal estacionou viaturas em frente à residência de Cláudio Castro, num condomínio de alto padrão na Barra da Tijuca, e cumpriu mandado de busca contra o ex-governador do Rio de Janeiro. O detalhe geográfico não é figura de linguagem, é prova material. O sujeito que governou o estado mais quebrado da federação, aquele mesmo estado que vive de socorro emergencial, regime de recuperação fiscal e choradeira em Brasília, mora numa fortaleza de concreto e mármore onde o metro quadrado custa o salário anual de um professor da rede pública que ele mesmo deveria ter pagado em dia.

Repare na coreografia. O governador chega ao cargo prometendo austeridade, combate ao crime, modernização da máquina. Sai do cargo com a polícia federal batendo no interfone do condomínio. No meio do caminho, alguém ficou rico, e quase nunca é o cidadão que recolheu IPVA, ICMS, ISS, taxa de bombeiro, taxa de incêndio, taxa de licenciamento, taxa de uma centena de outras invenções burocráticas criadas para sustentar exatamente este enredo. O fluminense paga uma das cargas tributárias mais brutais do país e recebe em troca buraco na rua, hospital sem gaze e, agora, o espetáculo gratuito de ver seu ex governante revistado em casa.

A pergunta não é se Castro é culpado, isso o devido processo legal há de esclarecer, e ninguém aqui é juiz. A pergunta é estrutural, e ela é incômoda justamente porque não muda nunca. Por que toda gestão estadual do Rio termina assim? Garotinho, Rosinha, Sérgio Cabral, Pezão, Witzel afastado, e agora Castro com a PF no quintal. Não é azar, não é coincidência, não é perseguição. É o desenho do brinquedo. Quando você concentra num único ente o poder de arrecadar bilhões, contratar bilhões, fiscalizar a si mesmo e nomear quem julga o desvio, o resultado deixa de ser surpresa e passa a ser estatística. A premissa garante a conclusão.

O condomínio de luxo na Barra é a metáfora perfeita do arranjo. Lá dentro tudo funciona, segurança privada vinte e quatro horas, asfalto liso, jardim aparado, porteiro educado. Do portão pra fora, a cidade real, aquela que financia o pedágio do condomínio através do contracheque público, sobrevive como pode. O Estado, esse leviatã que nos vendem como representante do interesse coletivo, na prática opera como clube fechado de sócios cotistas, e a cota de entrada se chama mandato eletivo. Quem paga a festa nunca é convidado. Quem é convidado raramente assina o cheque.

Há quem dirá que é preciso aguardar as investigações, que a presunção de inocência manda, que talvez não haja nada. Pode ser. Mas a defesa intransigente da presunção de inocência do indivíduo não se confunde com presunção de inocência da instituição. A instituição é reincidente, contumaz, recorrente, e nenhum operador desse sistema chega ao topo sem entender as regras tácitas do jogo. Julgue pelo que se faz, não pelo que se diz na posse com a mão na bíblia e o sorriso ensaiado. As coisas são o que são, e o que se vê nesta sexta é o que se viu na anterior, e na anterior à anterior, com elencos diferentes e enredo idêntico.

No fim, a conta sempre fecha pelo mesmo lado. Alguém produziu riqueza, alguém transferiu essa riqueza compulsoriamente, alguém intermediou a transferência, alguém embolsou na intermediação. A PF na Barra é só o último capítulo de um folhetim antigo, em que o ladrão veste terno, fala em nome do povo e mora em condomínio cercado por aqueles que ele jura proteger. O rei está nu, o palácio é alugado e o aluguel sai do seu bolso. Resta saber, sempre a mesma pergunta, quem pagou e quem recebeu.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.