A cena tem algo de comédia trágica. O presidente do Supremo cria, com ar de estadista, um grupo de trabalho para investigar as tais "penduricalhos" depois que o próprio Conselho Nacional de Justiça topou com magistrados levando mais de um milhão de reais em um único mês. Repare na delicadeza vocabular do regime, "penduricalho", como se fosse enfeite de árvore de Natal, e não o nome técnico do mecanismo pelo qual a casta togada multiplica vencimentos por seis, sete, dez vezes acima do teto constitucional que ela mesma jura defender. Quando o ladrão precisa apelidar o crime com diminutivo, é porque sabe perfeitamente o que está fazendo.

Façamos a conta sem anestesia, porque é nela que mora a obscenidade. Um milhão de reais por mês equivale, em valores líquidos, ao salário anual somado de cerca de cem trabalhadores que ganham um piso por mês. Cem famílias trabalhando doze meses para que um único homem de toga, em trinta dias, receba o equivalente. E esse homem não produz um parafuso, não planta um pé de alface, não conserta um cano. Ele assina despachos. A produtividade marginal do magistrado brasileiro, medida em sentenças por hora, faria corar um funcionário do correio soviético, mas a remuneração marginal compete com banqueiro de Wall Street. Algo, em algum ponto da equação, foi dolosamente arranjado.

E quem paga essa conta surreal? Não é o ar, não é o vento, não é o cosmos generoso. É o caixa do Tesouro, abastecido pelo confisco compulsório que chamam educadamente de tributo. Cada real que escorre para o contracheque do togado milionário saiu antes da boca de alguém, do remédio de algum aposentado, da merenda de alguma escola, da gasolina do motorista de aplicativo que trabalha catorze horas por dia. A operação é simples como uma bomba hidráulica, suga embaixo, jorra em cima. E quem opera a bomba é exatamente quem deveria, em tese, julgar a legalidade da sucção. Pedir ao juiz que limite o próprio salário é o mesmo que pedir à raposa que faça auditoria no galinheiro com olhos fechados.

Há um detalhe lógico que merece atenção, porque desmonta o teatro em três tempos. Se os tais penduricalhos são legais, então o teto constitucional é letra morta, e os togados violam diariamente, sob aparência de legalidade, o pacto que lhes confere autoridade. Se são ilegais, então temos décadas de enriquecimento sem causa praticado por aqueles cuja função é precisamente coibir o enriquecimento sem causa. Em qualquer dos dois ramos da bifurcação, a conclusão é a mesma, a Justiça brasileira não tem autoridade moral para julgar nem um furto de galinha. Não existe terceira saída, e o silogismo não pede licença.

O mais saboroso, porém, é o ritual que vem agora. Grupo de trabalho, relatórios, comissões, audiências públicas, mesas redondas, seminários patrocinados, e ao final, depois de meses de fumaça cerimonial, nenhum centavo será devolvido, nenhum togado será afastado, nenhum privilégio será cortado pela raiz. Talvez se renomeie o "penduricalho" para "verba indenizatória de natureza alimentar permanente compensatória especial", e tudo seguirá igual. Foi assim no Império, foi assim na República Velha, foi assim na ditadura, é assim agora. A casta se autoinveStiga com a mesma seriedade com que o cassino fiscaliza o crupiê, ou seja, conferindo se a banca está ganhando o suficiente.

Resta a pergunta que toda coluna honesta precisa fazer, mesmo quando incomoda. Quem paga é o sujeito anônimo que acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus, leva marmita, e ainda assim vê um terço do que ganha sumir em tributos antes mesmo de cair na conta. Quem recebe é uma corporação de oitocentas pessoas, talvez mil, organizadas em sindicato vitalício chamado magistratura, que descobriu o segredo alquímico de transformar caneta em ouro sem precisar minerar nada. Enquanto o súdito continuar achando que isso é Justiça, e não pilhagem com beca, o milhão por mês vai virar dois, depois três, até que o próprio nome da farsa precise ser trocado, porque ninguém mais aguenta ouvir.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.