O Goldman Sangue de Cristo Sachs soltou um relatório dizendo que a Coinbase está indo muito bem, obrigado, porque diversificou suas fontes de receita para além da simples corretagem de criptomoedas. Staking, custódia institucional, derivativos, produtos regulados, tokenização de ativos reais, tudo isso agora compõe uma receita que não depende mais do humor bipolar do bitcoin na madrugada. O papel subiu, o analista bateu palmas, e o investidor institucional que passou uma década torcendo o nariz para o assunto agora entra pela porta da frente vestindo terno risca de giz. Convenhamos, é um espetáculo digno de comédia italiana.

O que está acontecendo aqui, para quem quer enxergar, é a legitimação tardia de uma tecnologia que nasceu justamente para escapar do sistema que agora a abraça. O bitcoin foi inventado como resposta ao resgate bilionário dos bancos em 2008, quando o contribuinte americano pagou a conta da farra imobiliária que Wall Street tinha organizado. A ideia original era simples e revolucionária: dinheiro que o governo não pode imprimir, transações que o intermediário não pode censurar, propriedade que ninguém pode confiscar por decreto. E agora, dezessete anos depois, quem vende o serviço com margem gorda é exatamente o tipo de instituição contra a qual a coisa foi inventada. Ironias da história, ou talvez apenas a velha lei de que todo movimento antissistêmico bem-sucedido acaba sendo cooptado, embalado e revendido pelo próprio sistema.

Olha, ninguém aqui está chorando pela Coinbase, que virou empresa listada e faz o que empresa listada faz, ou seja, agrada acionista. O ponto é outro. Enquanto o banco central americano ainda finge que ativos digitais são uma esquisitice de nerd libertário, o mercado real já precificou que essa infraestrutura veio para ficar. Os fundos de pensão querem exposição, as tesourarias corporativas querem exposição, os bancos privados querem exposição, e a única coisa que segura o movimento é a máquina regulatória lenta como um funcionário público na sexta à tarde. A regulamentação que virá, porque virá, não vai proteger o consumidor, vai proteger o incumbente. É sempre assim. O sujeito escala primeiro sem regra, chega no topo, e depois aplaude a regra que impede o próximo de escalar.

Me diz uma coisa, quem paga essa conta no fim? O pequeno investidor pulverizado, que agora compra exposição a cripto pagando taxa de administração para o mesmo banco que o chamava de trouxa por acreditar naquilo em 2017. O empreendedor de tecnologia financeira que tenta abrir uma corretora nova e descobre que o custo de compliance ficou proibitivo justamente porque os grandes já estabeleceram o padrão. E o cidadão comum, esse leva a fatura da inflação que empurra todo mundo para procurar reserva de valor fora do papel-moeda que o governo imprime como se fosse folheto de supermercado. A Coinbase cresce porque a moeda estatal encolhe. Não é mistério, é aritmética.

O relatório do Goldman é, no fundo, uma confissão travestida de análise. Diz que a Coinbase é boa porque parou de ser só cripto e virou serviço financeiro completo. Traduzindo do dialeto de Wall Street: a empresa é boa porque se aproximou do modelo tradicional que estava fugindo. Está tudo bem, é o jogo. Mas que ninguém venha depois dizer que o sistema financeiro tradicional descobriu a inovação. Ele não descobriu, ele engoliu, mastigou, e agora está digerindo em ritmo próprio. E enquanto isso o cidadão que quer proteger o pouco que sobrou do salário depois do imposto, do INSS, da taxa municipal, da inflação e da tarifa bancária, esse cidadão continua sendo a razão pela qual tudo isso existe. A revolução monetária não morreu, foi só reprecificada com desconto para o cliente premium.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.