Rogers Devia, ex-prefeito de Cubarral e peça do tabuleiro de Abelardo de La Espriella, foi executado a tiros na noite de sexta-feira, junto com o assessor Eder Cardona, no interior colombiano. A notícia chega embrulhada no papel de presente de sempre, aquele tom asséptico de boletim policial, como se fosse acidente de trânsito ou queda de raio. Não foi. Foi recado. E recado bem entregue, com remetente anônimo e selo pago pelo destinatário, que agora pensa duas vezes antes de subir num palanque.
A Colômbia tem uma tradição peculiar de resolver disputas eleitorais sem o incômodo burocrático de contar votos. Desde os tempos em que Gaitán caiu na rua em 1948 e abriu as comportas de uma guerra civil que nunca terminou de verdade, o país aprendeu que o eleitor mais eficiente é aquele que aperta o gatilho. Pablo Escobar profissionalizou o método, as FARC industrializaram, os paramilitares franquearam, e hoje a coisa funciona com a regularidade de um relógio suíço: candidato sobe nas pesquisas, aliado morre, candidato baixa o tom, alguém ganha. Quem ganha? Essa é sempre a pergunta que ninguém quer responder em voz alta.
De La Espriella é advogado conhecido, figura barulhenta, candidato que tem irritado gente grande no atual arranjo de poder em Bogotá. Petro governa um país onde o narcotráfico recuperou territórios inteiros, onde dissidências das FARC voltaram a impor pedágio em estradas, onde o ELN faz política externa paralela com a Venezuela e onde a chamada paz total se traduziu, na prática, em armistício unilateral do Estado contra si mesmo. Nesse caldo, quem se candidata a mexer no formigueiro sabe que está colocando o nome numa lista. A lista existe. Sempre existiu. Só muda o cabeçalho conforme o governo da vez.
O raciocínio é simples e brutal, daqueles que cabem num guardanapo. Se matar oposição custa pouco e elege muito, mata-se. Se a justiça é lenta, capturada ou conveniente, mata-se mais. Se a imprensa internacional prefere falar de mudança climática a falar de chacina rural na Colômbia, mata-se à vontade. O cálculo do assassino político é tão racional quanto o do investidor de bolsa: risco baixo, retorno alto, liquidez imediata. E o Estado, esse monopolista que jura proteger a vida em troca de impostos, entrega o serviço com a mesma eficiência com que os Correios entregam encomenda em greve.
Há quem ainda acredite, com aquela inocência comovente de quem nunca leu um jornal direito, que essas mortes são obra de criminosos isolados, lobos solitários do narcotráfico, fatalidades regionais. É a mesma gente que acredita em Papai Noel fiscal e em político honesto. A verdade é que existe um mercado de violência política funcionando a pleno vapor no continente, com oferta abundante de matadores, demanda firme de mandantes e intermediação discreta de quem tem interesse em manter o cardápio eleitoral curto. Quando alguém morre, alguém respira. Sempre. E quem respira, na regra geral, está confortavelmente sentado num gabinete oficial, assinando decreto e dando entrevista sobre a importância do diálogo.
Resta perguntar, porque é a única pergunta que importa, quem paga e quem recebe. Paga o eleitor colombiano, que vê suas opções políticas reduzidas a tiro. Paga a família de Devia, que enterra um pai. Paga o continente, que aprende de novo a lição de que urna sem segurança é teatro. Recebe quem precisava daquela cadeira vazia, quem temia aquele palanque cheio, quem dorme melhor sabendo que um adversário a menos significa uma reeleição mais provável. Não precisa de nome. Basta seguir a fumaça, que ela sempre leva até a fogueira certa.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.