A Colômbia decidiu que precisa matar hipopótamos. Não qualquer hipopótamo, mas os descendentes dos quatro exemplares que Pablo Escobar importou da África nos anos 1980 para decorar sua Hacienda Nápoles, aquele parque temático do narcotráfico que o governo colombiano tolerou durante anos enquanto o dinheiro da cocaína irrigava a economia local. Agora, passadas quatro décadas, os bichos se multiplicaram, viraram "espécie invasora" e o Estado encontrou finalmente um problema que pode resolver com bala sem que ninguém o acuse de violar direitos humanos. Conveniente.
Convém perguntar como esses hipopótamos chegaram à Colômbia. Não desceram do céu nem surgiram por geração espontânea nos rios do Magdalena. Foram comprados com dinheiro do tráfico de cocaína, uma indústria que só existe na escala em que existe porque governos do mundo inteiro decidiram, no início do século passado, que certas substâncias deveriam ser proibidas. A proibição não eliminou a demanda; criou um mercado clandestino fabulosamente lucrativo. Escobar não foi um acidente da natureza. Foi o produto lógico e previsível de uma política estatal. O mesmo aparato que declarou guerra às drogas e perdeu em todas as frentes agora declara guerra aos hipopótamos, provavelmente a única batalha que consegue vencer.
Observe a lógica: o Estado proíbe uma substância, o preço dispara, o tráfico se torna mais lucrativo que o petróleo, um sujeito acumula fortuna suficiente para importar fauna africana para o interior da Colômbia, o Estado não consegue prender esse sujeito por uma década, quando finalmente o elimina não se dá ao trabalho de resolver o zoológico que ficou para trás, os bichos se reproduzem livremente por quarenta anos, e agora o mesmo Estado que falhou em cada uma dessas etapas se apresenta como o gestor competente que vai "conter o avanço da espécie". Se alguém escrevesse esse roteiro para um filme, seria rejeitado por inverossímil. Na vida real, vira política pública com chancela ministerial e cobertura jornalística respeitosa.
E o dinheiro? Sempre o dinheiro. Alguém vai ser contratado para executar o abate. Alguém vai receber para "monitorar" a população restante. Alguém vai produzir relatórios ambientais justificando cada etapa. Alguém vai gerir o orçamento do programa. Quando o Estado mata, nunca é de graça: há licitações, consultorias, verbas carimbadas, cargos criados. O hipopótamo de Escobar, que já sustentou o narcotráfico com sua presença decorativa, agora vai sustentar a burocracia ambiental com sua morte. O bicho não tem sossego: vivo, servia ao narco; morto, serve ao burocrata. A única diferença é que o narco ao menos tinha a honestidade de não fingir que estava fazendo aquilo pelo bem comum.
O mais revelador, porém, não é o abate em si. É a retórica que o envolve. "Espécie invasora", dizem. Invasora como quem invade? O hipopótamo não escolheu atravessar o Atlântico. Foi trazido pela mão humana, numa cadeia de causa e efeito que começa na proibição estatal e termina nos pântanos do Magdalena. Chamar o bicho de invasor é como incendiar uma casa e depois culpar o fogo. Mas essa é a especialidade de todo governo: criar o problema, batizá-lo com nome técnico, montar uma comissão para estudá-lo, aprovar um orçamento para combatê-lo e, no fim, cobrar o imposto de quem nunca pediu nada daquilo. O hipopótamo colombiano é a metáfora perfeita do Estado moderno: um problema que ninguém encomendou, que ninguém consegue controlar e cuja "solução" vai custar mais do que o problema original.
Se a Colômbia quisesse ser honesta, colocaria uma placa na Hacienda Nápoles: "Aqui jaz o legado combinado da guerra às drogas e da incompetência estatal. Os hipopótamos pagaram a conta." Mas honestidade não é o forte de quem precisa justificar o próprio salário. Então chamem os veterinários, montem a operação, contratem os consultores, distribuam as verbas. Há bocas para alimentar na máquina pública, e um hipopótamo morto, no fim das contas, alimenta mais gente que um hipopótamo vivo.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.