A notícia é singela, quase ternurenta: coloque papel alumínio no seu vaso sanitário e veja o que acontece. Viralizou. Centenas de milhares de cliques. Gente de todo o país anotando, compartilhando, tentando. E ninguém, absolutamente ninguém na imprensa grande, parou para se perguntar o que exatamente essa viralização diz sobre o país em que vivemos. Porque se uma dica de papel alumínio no banheiro vira fenômeno de interesse público, alguma coisa muito mais séria está acontecendo debaixo dessa superfície doméstica, e o cheiro que exala não é de produto de limpeza.
Há uma lógica cruel e precisa no que está acontecendo. O produto de limpeza que o cidadão usava há dez anos custava X. Hoje custa 2,5X, 3X, às vezes mais. A embalagem encolheu, a fórmula piorou, e o bolso ficou do mesmo tamanho, quando não minguou. Isso não é acaso, não é má sorte, não é o mercado sendo cruel por esporte. É o resultado aritmético e previsível de décadas de política monetária expansionista, carga tributária confiscatória sobre bens de consumo e um sistema de regulação que favorece os grandes players do setor de higiene doméstica, aqueles que têm lobistas bem pagos circulando pelos corredores de Brasília, em detrimento do cidadão que apenas quer que seu banheiro não feda. Siga o dinheiro e você vai encontrar, invariavelmente, o Estado no meio do caminho, cobrando pedágio.
O papel alumínio, nesse contexto, é uma solução de engenhosidade popular genuína, e não há nada de errado nisso em si mesmo. O problema não é a dica. O problema é a necessidade da dica. Impérios construíram aquedutos, catedrais góticas exigiram séculos de maestria técnica acumulada, civilizações inteiras foram julgadas pela qualidade dos seus sistemas sanitários. E nós, no segundo maior país da América do Sul, com uma das maiores cargas tributárias do planeta, com um Estado que não para de crescer, de contratar, de gastrar e de regular, chegamos ao ponto em que a inovação doméstica da semana é enfiar metal em cano de esgoto. Há algo de profundamente simbólico nisso, e o símbolo não é bonito.
Existe uma palavra precisa para o que acontece quando o poder público torna sistematicamente mais difícil a vida ordinária do cidadão comum: empobrecimento. Não necessariamente o empobrecimento dramático, aquele que aparece nas manchetes com crianças passando fome, embora esse também exista. O empobrecimento lento, rasteiro, que vai corroendo a capacidade de uma família de comprar o produto de limpeza decente, de trocar o eletrodoméstico quebrado sem entrar em dívida, de fazer uma reforma na casa sem vender rim. Esse empobrecimento não aparece nas estatísticas do PIB, não consta nos discursos do ministro da Fazenda, mas aparece nas pesquisas de busca: "dica caseira para limpar vaso", "como economizar no mercado", "substituto barato para produto X". O Google sabe mais sobre a condição real do povo do que qualquer instituto oficial.
E enquanto isso, o Congresso debate a reforma tributária com a solenidade de quem está curando o câncer, o Banco Central faz seus comunicados em linguagem de manual de aviação e o cidadão descobre, no YouTube, que papel alumínio amassado tem propriedades que a ciência da gambiarra nacional ainda não catalogou completamente. Há uma ironia quase literária nisso: o mesmo metal que o Estado usa em suas instalações, nos aviões da FAB, nos satélites que monitoram o desmatamento para fins de narrativa internacional, esse mesmo metal, na versão popular e barata, virou a solução sanitária do mês para quem já não aguenta mais o preço do Pato. Não é pitoresco. É patético. E a diferença entre os dois é exatamente o quanto você está disposto a enxergar o que está na sua frente.
A dica funciona, dizem. Ótimo. O povo brasileiro tem uma capacidade de adaptação que seria admirável se não fosse tão frequentemente confundida com resignação. Adaptar-se ao absurdo não é virtude, é sobrevivência. E um povo que sobrevive acumulando truques de papel alumínio enquanto o aparato estatal consome 37% do que ele produz é um povo que merece uma imprensa disposta a nomear o que está acontecendo, não apenas a compartilhar a dica e seguir em frente. O vaso continua sujo. O problema real nunca foi sanitário.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.