Quinze mil recursos. Leia de novo, com calma. Quinze mil contestações jurídicas empilhadas nas gavetas do tribunal eleitoral peruano, cada uma com seu carimbo, seu advogado, sua taxa, sua demora calculada. O povo peruano foi às urnas, cumpriu o ritual cívico, enfiou o dedo na tinta, posou para a foto da democracia funcionando, e agora descobre que o resultado do voto depende da caneta de um juiz que ninguém elegeu. O país terá o nono presidente em dez anos. Nono. Na aritmética crua, um presidente a cada treze meses, o que transforma o Palácio de Pizarro num AirBnB político com rotatividade de motel.
Ora, quando uma máquina quebra nove vezes em dez anos, duas hipóteses se impõem à mente minimamente treinada: ou o operador é um incompetente crônico, ou a máquina foi desenhada para quebrar. No caso peruano, e isso vale para boa parte da vizinhança, a segunda hipótese merece atenção carinhosa. Instabilidade institucional não é bug, é feature. Cada impeachment, cada renúncia forçada, cada resultado contestado abre uma janela preciosa para que alguém arrume suas cadeiras, redistribua seus cargos, refaça seus contratos. Quem paga a conta do caos é o peruano comum, que acorda sem saber quem governa. Quem recebe os dividendos é a casta que opera nas sombras dos ministérios, das estatais, dos tribunais, e que sobrevive a qualquer urna.
Perceba o truque, porque é de uma elegância quase cômica. Vende-se ao cidadão a ideia de que o voto é a coroa da soberania popular, a expressão sagrada da vontade geral, e em seguida aparecem quinze mil petições jurídicas para informar, com toda cordialidade, que a vontade popular precisa passar pelo crivo de um burocrata togado antes de produzir efeitos. O voto vale até o momento em que desagrada. Se o resultado convém ao arranjo vigente, é democracia. Se desagrada, é fraude, e aí vêm os recursos, os embargos, as liminares, os pareceres, os atrasos, até que o tempo, esse grande diluidor de paixões, faça o cidadão desistir e voltar para a labuta de sobreviver à inflação.
A história latino-americana é pródiga nesse exercício de substituir caudilhos de farda por caudilhos de toga, e o resultado prático para quem trabalha e paga imposto é rigorosamente o mesmo. No fim do século passado, quando os tanques saíam das ruas, prometeu-se que a democracia traria estabilidade, crescimento, previsibilidade. Três décadas depois, o que se vê é um carrossel presidencial em que cada novo ocupante do cargo chega mais fraco, mais refém, mais decorativo. A autoridade formal migra silenciosamente para quem não enfrenta urna, não dá entrevista, não presta contas. O presidente é a face pública do poder. Quem manda, mesmo, assina embaixo dos nomes dos outros.
E aqui vale o bisturi no eufemismo: chamar isso de crise é subestimar o engenho. Crise seria desvio de um estado normal. O que se vê no Peru não é desvio, é funcionamento pleno de um sistema desenhado para que nada de fundamental mude. A cada presidente derrubado, os contratos de mineração seguem, as dívidas externas são renegociadas nos mesmos termos, os órgãos multilaterais enviam suas missões técnicas, os mesmos advogados redigem as mesmas cláusulas. O cidadão peruano, esse sim, continua sendo ordenhado pela tributação, pela burocracia, pela desvalorização silenciosa do sol em sua carteira. A roda gira, os nomes trocam, a conta é paga por quem não lê o contrato.
Resta então a pergunta incômoda, aquela que ninguém quer formular em voz alta nas redações bem-comportadas: se o voto depende de quinze mil recursos, se o presidente eleito só toma posse depois que tribunais decidem se ele foi mesmo eleito, se a figura do chefe de Estado é descartável a cada treze meses, então o que exatamente está sendo votado? A resposta é desconfortável e por isso mesmo precisa ser dita. Vota-se na aparência, decide-se na antessala. O cidadão escolhe o ator, o roteiro já estava escrito. E enquanto o peruano espera até maio para saber quem assumirá o palácio, os verdadeiros beneficiários do arranjo já estão jantando tranquilamente, porque sabem que, ganhe quem ganhar, quem perde é sempre o mesmo.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.