O mapa divulgado pelo instituto Veritá não é apenas um dado eleitoral. É uma sentença. Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, aparece na liderança em todas as cinco regiões do país, inclusive naquelas onde a esquerda brasileira construiu durante décadas seu castelo de areia com cimento de bolsa e argamassa de narrativa. O Nordeste, região que o PT tratou como feudo hereditário, como se a pobreza estrutural que nunca resolveu fosse título de propriedade sobre a consciência de trinta e cinco milhões de pessoas, começa a mostrar rachaduras que nenhuma marquetagem apaga. Isso não é uma pesquisa. É um espelho.
Há um padrão histórico nas grandes viradas eleitorais que os analistas de plantão insistem em ignorar, porque reconhecê-lo exigiria honestidade intelectual, virtude rara em quem vive de comentário pago. Toda vez que um projeto político confunde gratidão com fidelidade, toda vez que um governante trata o beneficiário de um programa social como gado eleitoreiro em vez de cidadão com dignidade, o ciclo de ruptura é apenas uma questão de calendário. Roma viu isso acontecer com seus populares. A França viu isso acontecer com seus jacobinos. O Brasil está vendo acontecer agora com seu lulopetismo, que transformou a transferência de renda em instrumento de captura política e agora se surpreende quando o capturado descobre que a jaula estava aberta o tempo todo.
Siga o dinheiro e você entende o desespero. O governo Lula gastou, somente no primeiro biênio do terceiro mandato, cifras que fariam corar qualquer governo anterior acusado de "neoliberalismo selvagem", como se reduzir o tamanho do Estado fosse um crime e inflar a máquina pública com cargos, contratos e transferências fosse virtude cívica. Cada real gasto acima da capacidade fiscal é um imposto invisível sobre quem trabalha, sobre quem empreende, sobre quem acorda cedo demais para esperar que o Estado apareça na porta com solução. A inflação não é acidente. É política. E o trabalhador nordestino, que paga mais caro no mercadinho do bairro do que qualquer economista de Ipanema consegue admitir em seu modelo, começa a fazer a conta sem precisar de doutor para ensiná-lo a soma.
A esquerda brasileira construiu sua hegemonia regional no Nordeste sobre três pilares que ela própria foi corroendo: a narrativa do abandono histórico, a promessa de redistribuição e o controle dos governos estaduais. O primeiro pilar virou contradição ambulante quando, após vinte e dois anos de PT nos últimos três ciclos presidenciais somados, a infraestrutura, a educação e a renda per capita do Nordeste continuam vergonhosamente abaixo da média nacional. O segundo pilar revelou seu verdadeiro custo quando a população percebeu que redistribuir riqueza que não existe é apenas nomear de outra forma o empobrecimento coletivo. E o terceiro pilar está sendo solapado por uma nova geração de líderes regionais que entendeu que dever favores a Brasília não é governar, é servir. O campo está fértil, e o mapa do Veritá apenas documenta a colheita.
Flávio Bolsonaro não vence no papel porque é um estadista de proporções históricas, e nenhum analista sério afirmaria isso com convicção. Ele vence porque representa, neste momento, a alternativa ao modelo que está visivelmente falindo. Em política, como em física, o vácuo não permanece vazio por muito tempo. Quando uma força perde legitimidade, a oposição não precisa ser brilhante, precisa ser real, presente e confiável o bastante para que o eleitor cansado aposte nela como aposta num candidato incerto em vez de segurar o que já conhece e odeia. O PT errou ao acreditar que o descontentamento com Bolsonaro pai seria fidelidade perpétua ao PT filho. Esse é o erro clássico de quem confunde "votei contra alguém" com "votei por você". São coisas absolutamente distintas, e as pesquisas estão cobrando essa distinção com juros.
O que este mapa anuncia, para quem tem olhos além do ciclo de vinte e quatro horas das redes sociais, é que o Brasil pode estar diante de sua primeira reconfiguração eleitoral completa em geração. Todas as regiões, incluindo o Nordeste que o PT tratou como quintal sagrado, apontando para o mesmo candidato de oposição não é fenômeno de campanha. É fenômeno de esgotamento civilizatório de um projeto. Os impérios que caem não caem de uma vez. Caem aos pedaços, região por região, cidade por cidade, até que alguém olha para o mapa e percebe que o que chamava de fortaleza é ruína. O instituto Veritá apenas tirou a foto. A ruína estava lá antes da câmera chegar.
Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.