Três bilhões e seiscentos e setenta milhões de reais. Convém repetir o número por extenso para que o leitor sinta o peso de cada sílaba, porque cifras com muitos zeros tendem a se tornar abstrações. Não são. Esse é o prejuízo da Oncoclínicas em 2025, um salto de mais de cinco vezes em relação aos R$ 717 milhões perdidos no ano anterior. A própria empresa, no balanço publicado na última quinta-feira, confessa o que no mundo real se traduz assim: estamos à beira do abismo e pedindo para ninguém olhar para baixo. "Cenário de incertezas significativas quanto à continuidade operacional", diz o relatório, num eufemismo tão polido que quase esconde o cheiro de queimado.

Agora, a primeira pergunta que qualquer pessoa com dois dedos de testa deveria fazer não é "como salvamos a Oncoclínicas?", mas sim: como diabos uma empresa do setor de saúde, um dos mercados mais irrigados por dinheiro público e privado do Brasil, consegue queimar quase quatro bilhões em um único exercício? Não se chega a um rombo dessa magnitude por acaso. Prejuízo bilionário não é acidente, é projeto. Alguém assinou os contratos, alguém aprovou as aquisições, alguém definiu os termos de financiamento, alguém projetou os fluxos de caixa que nunca se materializaram. E enquanto a conta explodia, esses mesmos alguéns estavam sentados em cadeiras confortáveis, recebendo bônus, emitindo comunicados otimistas ao mercado e, provavelmente, vendendo ações antes que o castelo desabasse. O prejuízo é socializado; o lucro, dos anos gordos, já foi privatizado há tempo. É a fórmula de sempre.

O setor de saúde brasileiro é um caso de estudo em captura regulatória. A ANS regula os planos, o SUS terceiriza procedimentos, o governo subsidia tratamentos oncológicos de alto custo, e no meio dessa teia de repasses, ressarcimentos e tabelas defasadas, surgem os gigantes corporativos que crescem por aquisição, não por eficiência. A Oncoclínicas seguiu exatamente esse manual: comprou dezenas de clínicas, inflou receita no papel, alavancou até o pescoço e rezou para que o fluxo de caixa futuro cobrisse a conta. É o mesmo roteiro de toda bolha alimentada por crédito barato e regulação que protege os grandes dos pequenos. Quando o juro sobe e a realidade bate à porta, o gigante descobre que tem pés de barro. Mas repare que o problema nunca é apresentado como o que realmente é, a saber, consequência de decisões deliberadas de gestores específicos. Não. O problema é sempre "o cenário macroeconômico", "a conjuntura adversa", "fatores exógenos". A culpa é do clima, nunca do piloto que dirigia bêbado.

E aqui entra o ato mais previsível da peça: o pedido de socorro. Quando uma empresa desse porte balança, os credores ficam nervosos, os bancos renegociam, e inevitavelmente alguém sugere que o governo "faça alguma coisa". Talvez uma linha de crédito especial do BNDES, talvez uma flexibilização regulatória, talvez um socorro disfarçado de "proteção ao paciente oncológico". Porque no Brasil o capitalismo funciona assim: o lucro é meu, o prejuízo é nosso. O contribuinte que nunca comprou uma ação da Oncoclínicas, que talvez nem saiba o que é a empresa, pode muito bem acabar pagando parte dessa conta por vias indiretas que nenhum jornal vai explicar com clareza. Não seria a primeira vez. A história econômica deste país é um cemitério de empresas "grandes demais para quebrar" que quebraram o contribuinte no processo de serem salvas.

O mais revelador, porém, é o silêncio ensurdecedor sobre responsabilização individual. Quem tomou as decisões que levaram a esse rombo? Quais foram as aquisições que não se pagaram? Quanto os executivos receberam em remuneração variável nos anos em que a empresa já caminhava para o precipício? Essas perguntas são elementares, e a ausência delas no debate público é a prova de que o jogo está viciado. No Brasil, gestor de empresa bilionária que destrói valor não vai preso, não perde patrimônio pessoal, não sofre consequência alguma. No máximo, renuncia com um pacote de saída milionário e reaparece dois anos depois como conselheiro de outra companhia. O sistema não pune a incompetência corporativa porque o sistema se beneficia dela. R$ 3,67 bilhões evaporaram, e o leitor pode ter certeza absoluta de uma coisa: esse dinheiro não desapareceu, apenas mudou de bolso.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.