O Estreito de Ormuz passou exatamente vinte e quatro horas aberto antes de fechar de novo, como porta de boteco em noite de briga. Washington e Teerã sentaram, conversaram, trocaram sorrisos diplomáticos, e o mercado respirou por um único pregão. No dia seguinte, um bloqueio naval norte americano reacendeu a fogueira, os persas retrucaram, e o barril estacionou nos noventa e cinco dólares como se aquilo fosse equilíbrio, e não extorsão coreografada. Chamam isso de estabilização. Eu chamo de protocolo de ordenha.
Convém olhar para a cena sem o véu da CNN. Toda vez que um estreito aperta, alguém ganha. Produtor americano de xisto, que só fecha a conta com barril acima de setenta, agradece. Tesouro saudita, que banca príncipe comprando time de futebol inglês, agradece. Trading desks de Genebra e Houston, que shortaram ontem e compraram hoje, agradecem de joelhos. Quem paga a conta? O sujeito que enche o tanque do Gol em Maringá, o caminhoneiro que leva soja para Paranaguá, a dona de casa que vê o botijão subir dois reais e não sabe por quê. A guerra é deles, a fatura é nossa.
A lógica aqui é de uma simplicidade brutal. Se os governos envolvidos quisessem de fato o petróleo correndo solto, bastava não fazer nada. Mercado que se vira. Mas fazer nada não gera orçamento militar, não justifica porta-aviões no Golfo, não alimenta o complexo industrial que vive de crise como vampiro vive de sangue. Logo, a crise precisa existir. Se não existir, inventa-se. Se existir pouco, infla-se. O Estreito de Ormuz é hoje aquilo que foi o Golfo de Tonquim nos anos sessenta, um pretexto elástico, esticado conforme a necessidade do calendário eleitoral e das encomendas da Lockheed.
Repare na sequência, porque ela é pedagógica. Negociação, abertura, alívio no mercado, bloqueio, reação, fechamento, alta. Não é caos, é partitura. Cada nota tocada na hora certa para que o preço não desabe e nem dispare, parando na faixa que alimenta o xisto americano sem estrangular a economia consumidora a ponto de derrubar aprovação presidencial. Noventa e cinco dólares é preço político, não preço de escassez. É o número que os engravatados de Washington precisam para manter a máquina rodando, e o número que os aiatolás precisam para sustentar a própria folha de pagamento. Inimigos de palanque, sócios de balcão.
O brasileiro assiste a tudo isso pela televisão como se fosse filme de ação, torcendo por um lado ou por outro, sem perceber que é o figurante que paga o ingresso, a pipoca e o aluguel do cinema. A Petrobras, estatal que deveria ser escudo, é na verdade correia de transmissão, repassa a alta internacional no dia seguinte e engasga na baixa por duas semanas. O imposto embutido na gasolina, que já ultrapassa quarenta por cento do preço na bomba, transforma cada reviravolta em Ormuz num bônus para a Receita Federal. Tremores no Golfo Pérsico viram transferência automática de renda do trabalhador brasileiro para o governo brasileiro, com intermediação de xeques e senadores americanos. Engenharia financeira digna de aplauso, se não fosse um assalto.
Restam as perguntas que ninguém quer ouvir. Por que um estreito do outro lado do mundo determina quanto custa o pão de cada manhã? Porque permitimos que determine. Porque aceitamos a mitologia de que petróleo é questão geopolítica, quando é questão de propriedade, contrato e liberdade de navegação, coisas que funcionariam muito bem sem sete frotas de guerra garantindo o que o mercado garantiria sozinho de graça. Enquanto acharmos normal que generais decidam o preço da commodity que move nossas vidas, continuaremos pagando noventa e cinco dólares por um barril que, num mundo sem esse teatro, custaria quarenta. A diferença é o preço do espetáculo. E o espetáculo, como sempre, é cobrado à entrada.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.