A Comissão da Câmara adiou a votação da PEC da escala 6x1, aquela que promete reduzir a jornada semanal de 44 para 36 horas. Os deputados alegaram precisar de "mais tempo para analisar a proposta". Ora, se há algo que parlamentar brasileiro não precisa é de mais tempo. O que precisa é de mais coragem para dizer a verdade, mas coragem não rende voto, e mentira bonita rende manchete. O adiamento é o gesto clássico do político que não quer aprovar nem rejeitar: quer manter o assunto vivo o suficiente para colher dividendos eleitorais sem nunca pagar a conta. Quem paga, como sempre, é o sujeito que acorda às cinco da manhã para abrir o comércio.

A ideia de que se pode, por decreto legislativo, reduzir a jornada de trabalho sem reduzir salários e sem consequência alguma para o emprego é uma das superstições mais resistentes da política brasileira. É o equivalente econômico de acreditar que se pode emagrecer comendo mais. A jornada de trabalho não é um número arbitrário fixado pela crueldade dos patrões; é o resultado de uma negociação entre o que o trabalhador produz e o que o empregador consegue pagar. Quando o Estado intervém para alterar essa equação por força de lei, não está protegendo ninguém. Está apenas tornando mais caro empregar, o que significa que os mais vulneráveis, justamente aqueles que a PEC diz defender, serão os primeiros a perder a vaga ou a nunca conseguir uma.

Mas sigamos a trilha do dinheiro, que é onde a conversa fica interessante. Quem ganha com essa PEC? O trabalhador que vai ser demitido certamente não. O pequeno empresário que opera com margem de lucro de centavos, tampouco. Ganham os sindicatos, que terão nova bandeira para justificar a contribuição que arrancam do contracheque alheio. Ganham os políticos que assinam a proposta, porque o eleitor médio não entende de custos marginais, mas entende perfeitamente a frase "trabalhar menos e ganhar igual". Ganham os demagogos de sempre, que vendem almoço grátis sabendo que a conta chega no jantar, e chega para quem não foi convidado para a mesa.

O Brasil tem uma tradição admirável de criar direitos trabalhistas e uma tradição igualmente admirável de destruir empregos. Não é coincidência. Cada "conquista" inscrita na CLT é um tijolo a mais no muro que separa o trabalhador informal do formal, o desempregado do empregado, o empreendedor do falido. A CLT brasileira já é uma das legislações trabalhistas mais rígidas do planeta, e o resultado está à vista: quase metade da força de trabalho na informalidade, sem férias, sem décimo terceiro, sem FGTS, sem nada daquilo que a lei garante no papel. A PEC da escala 6x1 vai empurrar mais gente para esse limbo, e os mesmos deputados que hoje pedem "mais tempo para analisar" vão amanhã pedir mais programas sociais para amparar os desempregados que eles mesmos criaram. O ciclo é perfeito: o Estado cria o problema, depois se apresenta como solução, e cobra impostos dos sobreviventes para financiar ambos.

O adiamento, convém notar, não é sinal de prudência. É sinal de cálculo. Os deputados sabem que aprovar a PEC agora pode assustar o empresariado às vésperas de uma economia já cambaleante. Sabem também que rejeitá-la irritaria a base sindical e os influenciadores digitais que transformaram o tema em causa viral. Então fazem o que o político brasileiro faz de melhor: nada. Adiam, criam comissões, pedem estudos, simulam seriedade técnica enquanto medem a direção do vento. O trabalhador, esse, continua na mesma jornada de sempre, agora com a esperança a mais e a ilusão de que seus representantes estão cuidando dele. Não estão. Estão cuidando de si mesmos, como sempre estiveram. A pergunta que nunca fazem na tribuna é a única que importa: se essa PEC é tão boa para o trabalhador, por que é o político quem mais lucra com ela?

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.