Há uma pergunta que os executivos da indústria de jogos deveriam se fazer todas as manhãs diante do espelho, e não se fazem. Por que uma franquia sobre roubar carros, atropelar pedestres e fugir da polícia, criada por um estúdio escocês teimoso, se tornou o maior fenômeno cultural interativo das últimas três décadas? A resposta não está no realismo dos tiroteios, tampouco na fidelidade da física dos veículos. Está no rádio. Sempre esteve no rádio. E quem entendeu isso primeiro entendeu tudo.
A curadoria musical da franquia começou como brincadeira paródica nos anos noventa, quando o jogo ainda era um bicho estranho em vista de cima, e evoluiu para uma operação de garimpo cultural que envergonha qualquer plataforma de streaming atual. Enquanto os algoritmos das big techs empurram para o ouvinte o mesmo funk requentado da semana e a mesma balada pop calculada por engenheiros de engajamento, a produtora do jogo emprega curadores humanos que passam meses cavando arquivos, licenciando faixas obscuras, negociando com viúvas de músicos mortos e ressuscitando gêneros inteiros que a indústria fonográfica havia jogado no lixo. Rock sulista dos anos setenta, funk carioca antes de virar produto de exportação, jazz fusion que só existia em vinil arranhado, tudo cabe se servir à ambientação. É trabalho artesanal na era da produção industrial.
O procedimento é conhecido por quem acompanha a indústria de perto, ainda que os estúdios rivais finjam não enxergar. Cada estação de rádio virtual recebe um DJ fictício, uma personalidade construída, um roteirista que escreve as vinhetas, e uma lista de faixas que precisa fazer sentido dentro daquele universo. Não basta comprar os direitos das músicas do momento e empilhar em ordem aleatória. É preciso que a rádio country soe como uma rádio country de verdade tocaria numa cidade fictícia inspirada no interior americano, com todo o cafona, o brega e o glorioso que isso implica. O resultado é que jogadores passam horas dirigindo sem objetivo, apenas para ouvir o que vem a seguir. Nenhum focus group corporativo produziria isso. Nenhum comitê de diversidade aprovaria metade das letras. Por isso funciona.
Vale a pena seguir o rastro do dinheiro, porque ele conta uma história moralmente inversa à narrativa oficial. Bandas que foram descartadas pelas gravadoras, artistas independentes que jamais tocariam em rádio comercial, produtores obscuros de nichos regionais, todos eles receberam royalties polpudos e, mais valioso ainda, uma exposição global que a indústria fonográfica jamais lhes daria. Existem casos documentados de músicos que reviveram carreiras inteiras depois de terem uma faixa incluída numa das rádios virtuais. O jogo, esse suposto vilão da juventude segundo os moralistas de plantão, funcionou como o maior mecenas musical da geração digital. Um jogo sobre criminalidade fazendo o que sindicatos, ministérios da cultura e leis de incentivo fiscal jamais conseguiram fazer.
Há uma lição maior escondida aqui, e ela ultrapassa o entretenimento. A cultura autêntica, aquela que dura e forma comunidades, nunca nasce da imposição vertical de comitês bem-intencionados. Nasce da curadoria obsessiva de quem ama o material, respeita o público adulto e recusa a tentação de higienizar tudo para caber nos padrões de sensibilidade do departamento jurídico. É por isso que a franquia sobrevive a gerações, atravessa consoles, resiste a modismos e continua sendo copiada sem ser igualada. Os concorrentes tentam replicar o mundo aberto, o humor, os gráficos. Ninguém consegue replicar o rádio, porque o rádio exige gosto, e gosto não se terceiriza para inteligência artificial nem para reunião de acionistas.
Enquanto isso, o Brasil segue debatendo se videogame causa violência, com autoridades que nunca ligaram um console na vida gastando saliva em audiências públicas patéticas. Deveriam antes estudar como um estúdio escocês transformou a licença musical em obra de arte curatorial, e por que nenhum produto cultural nacional consegue chegar aos pés disso. Talvez porque aqui a criatividade continua submetida ao cabresto do politicamente correto, dos editais estatais e do medo covarde de ofender quem quer que seja. Lá fora, roubam carros virtuais ao som de faixas esquecidas dos anos setenta. Aqui, aplaudimos comerciais de banco.
Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.