Existe uma contradição tão gritante que só não a enxerga quem foi treinado para não enxergar. Nas últimas três décadas, nunca houve tanto investimento em "conscientização sobre saúde mental", nunca proliferaram tanto os especialistas, os aplicativos de meditação, os cursos de mindfulness, os centros de bem-estar, as campanhas governamentais com laços coloridos e slogans edificantes. E, ao mesmo tempo, as taxas de depressão, ansiedade, síndrome do pânico e esgotamento triplicaram. Um observador honesto diante desses dois fatos simultâneos deveria pausar e perguntar: a solução está funcionando ou está fazendo parte do problema?
A notícia original, publicada com a melhor das intenções, lista hábitos simples para manter o equilíbrio mental: sono regular, movimento físico, conexões sociais, limites saudáveis. Nada disso é mentira. O problema não está no que a matéria diz, está no que ela omite sistematicamente: esses hábitos não são descobertas da psicologia contemporânea. São sabedoria comum que qualquer avó analfabeta do interior do Paraná praticava sem nunca ter ouvido falar em "higiene do sono" ou "regulação emocional". O camponês medieval, que dormia quando escurecia, trabalhava com o corpo, vivia enraizado numa comunidade e tinha um horizonte de sentido transcendente, apresentava níveis de angústia existencial incomparavelmente menores do que o executivo moderno com plano de saúde premium e acesso irrestrito à terapia online. A pergunta incômoda é: o que foi destruído no intervalo entre ele e nós?
A resposta passa por instituições que nenhuma campanha de saúde mental tem coragem de nomear. A família como núcleo de pertencimento foi sistematicamente atacada por décadas de políticas e cultura que celebraram sua fragmentação. A comunidade local, o bairro, a paróquia, o clube de bairro, todos os microcosmos onde o ser humano encontrava identidade e reciprocidade foram substituídos por uma relação direta, atomizada e dependente, entre o indivíduo isolado e o Estado provedor. A fé religiosa, que por milênios forneceu à consciência humana um quadro de referência para o sofrimento inevitável da existência, foi tratada como superstição a ser superada. E o trabalho com as mãos, que devolve ao homem a satisfação concreta de transformar matéria em resultado, foi desvalorizado em nome de uma economia de serviços e telas. Feita essa demolição meticulosa, o mesmo sistema que demoliu apresenta a fatura: agora você precisa de profissionais, aplicativos, políticas públicas e indústria farmacêutica para recuperar o que tinha de graça.
Siga o dinheiro e o quadro fica mais nítido. O mercado global de saúde mental ultrapassou 380 bilhões de dólares e cresce a dois dígitos ao ano. Não cresce apesar da piora generalizada do bem-estar psíquico, cresce por causa dela. Um paciente curado é um cliente perdido; um paciente cronicizado, convicto de que sua condição é biológica, permanente e medicamentosa, é uma fonte de renda recorrente. Não se trata de conspiração, trata-se de incentivos. Quando a estrutura de recompensas de um setor aponta para a manutenção da doença e não para a cura, o resultado previsível, sem precisar supor má-fé individual de nenhum ator, é exatamente o que se observa: mais diagnósticos, mais medicamentos, mais terapias, mais doenças. O Estado, por sua vez, financia campanhas, cria secretarias, elabora protocolos, não porque isso funcione, mas porque criar novos aparatos burocráticos é o reflexo condicionado de qualquer governo diante de qualquer problema, real ou inventado.
O que a matéria descreve como "hábitos simples" é, na verdade, a reconstrução artesanal e individual daquilo que a modernidade desfez coletivamente. Dormir bem é simples quando não há tela viciante projetada por engenheiros de persuasão para manter você acordado às duas da manhã. Mover o corpo é simples quando o trabalho e a cidade não foram organizados para eliminar todo esforço físico da vida cotidiana. Ter conexões sociais é simples quando existe uma estrutura comunitária que as sustenta naturalmente, sem que você precise "agendar um café" com um amigo como se fosse consulta médica. O problema não é a ignorância sobre os hábitos, o problema é que o ambiente foi engenheirado, muitas vezes com dinheiro público e políticas deliberadas, para torná-los difíceis. Oferecer a lista sem nomear o arquiteto do obstáculo é como distribuir guarda-chuvas sem mencionar que alguém perfurou o telhado.
A saúde mental não se recupera com mais uma campanha, mais um aplicativo, mais uma política pública. Recupera-se quando o indivíduo reconquista o que nenhum Estado pode dar e nenhum mercado pode vender: raízes, propósito, pertencimento e a coragem honesta de olhar para o próprio sofrimento sem transformá-lo imediatamente em diagnóstico e prescrição. Há algo de profundamente desonesto em uma civilização que destrói sistematicamente as condições naturais do florescimento humano e depois se apresenta, com jaleco e certificado, como a solução. Irritação constante, cansaço mental e falta de motivação podem ser sinais de desequilíbrio individual. Podem também ser a resposta perfeitamente racional de uma consciência saudável a um mundo que ficou doente primeiro.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.