Existe, a 187 quilômetros da capital paulista, uma cidade que cabe inteira numa tarde de caminhada. Águas de São Pedro tem 3,61 km² de extensão, cerca de dois mil habitantes e cheira a enxofre logo na entrada, como se a terra avisasse que ali as coisas são do jeito que a natureza manda, não do jeito que o gabinete determina. Essa cidade acaba de ser coroada pela quinta vez consecutiva como a melhor em desenvolvimento municipal do Brasil pelo Índice Firjan, numa façanha que nenhum metrópole-monstro sequer sonha em repetir. São Paulo tem 12 milhões de pessoas, um orçamento que faria Midas corar e ruas que parecem cenários de guerra civil. Águas de São Pedro tem uma fonte de água sulfurosa, a segunda mais concentrada do planeta, e cinco troféus seguidos. A contradição é tão gritante que dói nos olhos de quem ainda tem o hábito arcaico de enxergar a realidade.

A lição que ninguém quer tirar desse fato é a mais antiga da filosofia política: escala importa. Uma comunidade pequena, onde o padeiro conhece o prefeito pelo nome e o vereador passa vergonha na fila do mercado se fizer bobagem, funciona porque a prestação de contas é visceral, imediata, inevitável. O anonimato é o oxigênio da corrupção, e em Águas de São Pedro o ar é de enxofre, não de impunidade. Quando um povo é pequeno o suficiente para se ver, a política deixa de ser teatro e vira administração. Simples assim. Essa verdade estava disponível há mais de dois mil anos para qualquer um que quisesse ler, mas é muito mais lucrativo ignorá-la e continuar construindo Brasílias do que admitir que o gigantismo institucional é, por natureza, uma máquina de destruir o que o homem comum constrói.

Siga o dinheiro, sempre. O Índice Firjan mede educação, saúde e mercado de trabalho. São três áreas em que o governo federal despeja trilhões anualmente em programas com siglas e logomarcas, enquanto os indicadores nacionais agonizam com regularidade deplorável. Águas de São Pedro não tem nada de extraordinário em termos de transferências federais, não tem polo industrial subsidiado, não tem zona de livre comércio criada por decreto presidencial num discurso de fim de ano. Tem uma fonte natural que atrai turismo, tem uma gestão municipal pequena o suficiente para não se perder na própria burocracia e tem uma população que cabe num único bairro de qualquer capital brasileira. O resultado é cinco vezes o primeiro lugar. A conclusão lógica que qualquer pessoa honesta deveria tirar é que, talvez, a prosperidade não seja filho do Estado, mas sua vítima preferida.

Há um princípio econômico que a classe política brasileira trata como heresia: recursos escassos alocados por pessoas que arcam com as consequências das próprias decisões rendem mais do que os mesmos recursos distribuídos por burocratas que nunca verão o resultado do que assinam. Em Águas de São Pedro, cada real mal gasto aparece no rosto do vizinho. Em Brasília, cada real mal gasto vira estatística, depois estatística revisada, depois nota de rodapé num relatório que ninguém lê. A transparência não nasce de lei de acesso à informação, nasce de proximidade humana, daquela insubstituível e inconveniente realidade de ter que olhar nos olhos de quem você governa toda manhã. Legislar para abstrações é fácil e lucrativo. Administrar pessoas reais é outra conta, que em Águas de São Pedro alguém tem que pagar.

O Brasil oficial vai ignorar essa história, como ignora tudo que contradiz a narrativa de que o país precisa de mais Estado, mais programas, mais coordenação central, mais verbas federais, mais agências reguladoras, mais burocracia com boa intenção e péssimo resultado. A água sulfurosa de Águas de São Pedro cura reumatismo há décadas. A água estagnada de Brasília só cura o apetite de quem bebe dela. Uma cidade que cabe numa manhã de passeio é pentacampeã em qualidade de vida num país de 215 milhões de habitantes. Esse fato não é curiosidade jornalística, é veredito. E o réu, como sempre, prefere não comparecer ao julgamento.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.