Existe uma categoria específica de mentira que não é exatamente mentira porque nenhum dado foi falsificado, mas que produz o mesmo efeito prático de enganar sistematicamente quem ouve. O setor de tecnologia de consumo a domina com maestria cirúrgica. A lógica é simples e implacável: construa o desejo antes de apresentar o produto, defina "necessidade" a partir do que você vende, e pronto, o comprador chega à loja convencido de que precisa de oito núcleos de processamento para abrir o Gmail. O resultado é previsível: milhões de máquinas de alto desempenho vendidas para pessoas que usam dez por cento da capacidade comprada, enquanto reclamam que a bateria dura três horas e o aparelho esquenta como ferro de passar.
A questão não é técnica. É de fins e meios, e qualquer pessoa com dois dedos de testa consegue resolver se parar de repetir o que o vendedor disse e começar a observar o que de fato faz no computador. Quem trabalha com texto, navegador, planilhas e chamadas de vídeo não está executando renderização 3D nem compilando kernel de sistema operacional. Está fazendo o equivalente computacional de dirigir pelo bairro. Para isso, a diferença entre um processador mediano e um processador de alto desempenho é zero na experiência cotidiana, e considerável no preço, no peso da mochila e na vida útil da bateria. A indústria sabe disso. Por isso, o marketing jamais começa pela pergunta "o que você precisa fazer?" e sempre começa pela resposta "veja o que temos para oferecer."
O que realmente importa numa máquina para uso comum é justamente o que os anúncios tratam como detalhe secundário: autonomia de bateria real, peso que não transforma a mochila em instrumento de tortura, tela que não cansa os olhos em seis horas de trabalho, teclado que não faz a mão doer depois de dois mil caracteres, e aquecimento que não cozinha a coxa enquanto o usuário assiste a uma reunião. Esses fatores determinam a experiência de uso em noventa por cento do tempo. O processador determina em dez, e mesmo assim apenas nos picos, que para o usuário comum ocorrem raramente. Mas tenho memória boa o suficiente para lembrar que "bateria de doze horas" nunca foi tema de campanha publicitária de grande impacto, enquanto "o processador mais rápido do mercado" já vendeu o mesmo laptop por três gerações com nomes diferentes.
Há uma inversão conceitual que precisa ser nomeada: o mercado de tecnologia não vende ferramentas, vende identidade. O notebook caro não é comprado porque faz mais, é comprado porque diz algo sobre quem o carrega. Isso é legítimo enquanto escolha pessoal e gasto consciente do próprio dinheiro. O problema começa quando essa lógica simbólica se disfarça de argumento técnico e convence o comprador de que ele está fazendo uma escolha racional de performance quando está, na verdade, comprando o logotipo iluminado. O homem que paga três vezes mais por uma máquina para usar Microsoft Word não é menos inteligente que os outros; é simplesmente vítima de um marketing que trabalhou décadas para que ele não fizesse a pergunta certa antes de passar o cartão.
A escolha racional de um notebook para uso cotidiano passa por três critérios que o comprador precisa ter resolvidos antes de entrar em qualquer loja, física ou virtual. Primeiro: mapeie o uso real, não o uso aspiracional. Se hoje o trabalho são documentos, planilhas e chamadas, projete para esse uso, não para o dia hipotético em que talvez edite vídeos. Segundo: bata o preço contra a duração da bateria e o peso, não contra os números do processador. Terceiro: desconfie de qualquer vendedor que comece pela ficha técnica antes de perguntar para que você vai usar a máquina, porque esse vendedor não está resolvendo seu problema, está liquidando o estoque dele. O mercado funciona bem quando o comprador sabe o que quer. Quando não sabe, o mercado também funciona, só que para o vendedor.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.