A notícia em si é banal ao ponto de ser quase corajosa na sua mediocridade: um veículo de imprensa, com pretensões de seriedade, dedicou espaço editorial a informar aos seus leitores o que Vênus em conjunção com Mercúrio reserva para os nativos de Gêmeos numa segunda-feira de abril. Não há ironia aqui, não há sátira, não há experimento sociológico disfarçado de coluna. É o produto bruto, sem refinamento, da capitulação intelectual de uma sociedade que decidiu, em algum momento entre o Renascimento e a última eleição, que a observação rigorosa da realidade é cansativa demais para o cidadão médio.
O horóscopo tem uma lógica interna que merece ser examinada com seriedade, precisamente porque essa lógica é a mesma que sustenta metade das políticas públicas do país. A premissa é simples: existe uma força invisível, incontrolável, benevolente em sua essência, que organiza o destino dos homens de acordo com critérios que o leigo não compreende mas deve aceitar. Troque "os astros" por "o Estado" e você tem o manual completo do progressismo contemporâneo. A diferença entre o astrólogo e o planejador central é que o astrólogo, ao menos, não cobra imposto compulsório para financiar suas revelações, e tampouco prende quem duvida das suas previsões. Nesse sentido restrito e perverso, o astrólogo é ligeiramente mais honesto.
Houve épocas em que a astrologia era coisa de corte, de rei, de decisão de guerra. Tibério consultava as estrelas antes de exilar senadores. Catarina de Médici tinha o seu Nostradamus à mesa de jantar. O que distinguia essas práticas da versão contemporânea não era a irracionalidade, que era idêntica, mas o contexto: a ignorância era a norma, o método científico ainda não existia como instituição consolidada, e a morte era suficientemente arbitrária para que qualquer sistema de previsão parecesse razoável. Hoje, depois de Newton, depois de Pasteur, depois de tudo que a civilização ocidental construiu às custas de séculos de rigor intelectual, um jornal publica horóscopo e o leitor clica, compartilha, e organiza a semana de acordo com o que Marte determina para Escorpião. Chesterton diria que quando o homem deixa de acreditar em Deus, não passa a não acreditar em nada, passa a acreditar em qualquer coisa. O horóscopo é o "qualquer coisa" da classe média alfabetizada.
O problema não é a crença privada. Cada um que organize sua vida como quiser, que consulte búzios, que leia tarô, que pergunte ao papagaio, que use cristais para atrair abundância ou afastar energias negativas. A liberdade individual inclui o direito sagrado à própria estupidez voluntária, e quem sou eu para interferir nisso. O problema é o que a prevalência dessa mentalidade produz em escala coletiva. Uma população que delega ao zodíaco a responsabilidade pelas suas decisões cotidianas está, por definição, treinando o músculo da abdicação. Está praticando, diariamente, o reflexo de terceirizar o julgamento. E esse reflexo não fica guardado a sete chaves na hora de votar, de pagar imposto, de aceitar regulação, de engolir narrativa oficial. O homem que acredita que Saturno em retrógrado explica seus problemas financeiros é o mesmo que acredita que o governo, com planejamento suficiente, pode resolver a escassez por decreto.
Existe uma palavra grega, que não vou citar por não ser esse o espaço para erudição de almanaque, que designa a sabedoria prática, a capacidade de julgar situações concretas com critério correto. É a virtude intelectual mais difícil de cultivar, porque exige experiência real, exposição ao fracasso, honestidade brutal sobre os próprios erros. O horóscopo é a antítese disso. Ele oferece ao leitor a sensação de orientação sem o custo da reflexão, a aparência de conhecimento sem o trabalho do aprendizado, a ilusão de controle sem a responsabilidade da escolha. É o fast food da inteligência, e como todo fast food, é saboroso, barato, acessível, e deixa o consumidor mais fraco do que antes.
O que o jornal publicou não é, em última análise, um horóscopo. É um diagnóstico. É o retrato de um público que aprendeu a preferir a profecia à análise, o conforto à verdade, a estrela cadente à estrela polar. Numa segunda-feira de abril de 2026, enquanto o país discute reforma tributária, endividamento público, custo Brasil e a destruição silenciosa de gerações inteiras de poupança privada pelo imposto inflacionário, um veículo de imprensa achou que o movimento de corpos celestes a bilhões de quilômetros era a informação mais útil que poderia oferecer ao seu leitor. Os astros falam. O cidadão escuta. A conta, como sempre, vem no fim do mês, e não tem signo que escape dela.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.