Existe um trecho de asfalto em Santa Catarina onde a serra desaba mil e quatrocentos metros em menos de dez quilômetros, com curvas em ferradura empilhadas como tripas de novelo, e a recomendação oficial para encarar aquilo é, em essência, a seguinte: acorde cedo, reze para a neblina não baixar, leve casaco e tenha paciência com os caminhões. Traduzindo do dialeto turístico para o português adulto: a estrada é maravilhosa, perigosíssima, e o cidadão que paga IPVA, CIDE, ICMS sobre combustível, contribuição de iluminação pública que nem ilumina e mais uns vinte tributos embutidos no litro da gasolina está convidado a se virar sozinho com a meteorologia.
O roteiro publicado parece guia de aventureiro, mas se lido com olhos secos é confissão. Dizem que o melhor horário é cedo, porque depois a neblina engole tudo. Dizem para verificar freios, pneus e suspensão, porque o motorista deve descer em marcha reduzida sem confiar no pedal. Dizem para ter cuidado com caminhões que descem queimando lonas porque a alternativa logística do escoamento da serra catarinense continua sendo aquela mesma fita de asfalto desenhada no século passado. Em nenhum momento alguém pergunta a coisa óbvia: onde foi parar o dinheiro que deveria ter duplicado, sinalizado, instalado contenção de neblina, escapatórias decentes e barreiras que não pareçam suvenir de feira?
O contribuinte brasileiro entrega ao Leviatã quase metade de tudo que produz, percentual que faria corar príncipe medieval, e em troca recebe a permissão graciosa de descer uma serra rezando o terço. Não é incompetência, é arranjo. Cada quilômetro não duplicado é um contrato não assinado, e cada contrato não assinado é um adversário político que não foi alimentado, ou um aliado que ainda não chegou na fila. A obra pública no Brasil obedece à lógica do banquete, não à da engenharia: serve-se primeiro a quem está sentado mais perto do anfitrião. O motorista que congela na esperando guincho na curva do Santander está sentado na mesa errada.
Repare na inversão semântica que sustenta o teatro. Chamam de atrativo turístico o que tecnicamente é falha estrutural prolongada por décadas. A paisagem é deslumbrante, ninguém nega, mas a paisagem não foi feita pelo Estado, foi feita por placas tectônicas que cobravam zero de imposto. O que o Estado fez foi pavimentar mal, manter pior e cobrar pedágios travestidos de tributo geral. Se um particular vendesse passagem para um parque com aquele índice de acidentes, estaria respondendo a processo no Procon. Mas quando o monopolista da via é a mesma figura que escreve as regras, julga as queixas e arrecada as multas, a tragédia vira folclore e o folclore vira propaganda turística.
A dica final dos manuais é que se deve descer com calma, observar a natureza e aproveitar a experiência. Aproveite mesmo, porque você já pagou três vezes por ela: pagou no combustível, pagou no licenciamento e paga agora no risco que assume sozinho. A lógica é redonda como curva fechada: o particular assume o risco integral, o Estado embolsa a receita integral e a imprensa amestrada chama isso de aventura inesquecível. Se as premissas dessa equação fossem aplicadas a qualquer outro setor, falaríamos em estelionato. Aplicadas a estrada federal, falamos em política pública.
Desça de manhã, sim. Cheque os freios, claro. Leve casaco, beleza. Mas, ao chegar embaixo, vivo e fotografado, faça o exercício mental que nenhum guia ensina: calcule quanto você financiou aquela serra ao longo da vida e compare com o que de fato foi entregue em asfalto, sinalização e segurança. A diferença entre os dois números tem nome técnico, e não é turismo de aventura. É a tarifa invisível que o súdito brasileiro paga para ter o privilégio de descer mil metros em curva fechada sem garantia de chegar inteiro embaixo.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.