Existe um pedaço de litoral catarinense onde a água é tão transparente que se vê o cardume passando entre as pernas, e existe uma prefeitura que descobriu, com a sagacidade típica do guichê público, que aquilo dava dinheiro. Bombinhas, com seus quarenta quilômetros quadrados de paraíso, instituiu há alguns anos a chamada Taxa de Preservação Ambiental, cobrada de todo turista que entra na cidade durante a alta temporada. O nome é uma obra-prima do marketing fiscal: ninguém é contra preservar nada, ninguém quer ser visto como inimigo da tartaruga marinha, então o cidadão saca o cartão e paga sem reclamar, na mesma cadência com que pagava o dízimo na Idade Média para garantir vaga no andar de cima.

O destino mais cobiçado da região é a Ilha do Arvoredo, e dentro dela o ponto chamado Sepultura, batismo lúgubre para um dos mergulhos mais bonitos do sul do Brasil. O peixe nada de graça, o coral cresce sem licitação, a visibilidade não tem CNPJ. Tudo o que a natureza fez ali, fez sozinha, em milhões de anos de paciência geológica, sem nenhum secretário de turismo emitindo nota técnica. E ainda assim, para chegar até lá, o aventureiro precisa atravessar um pedágio de carimbos: taxa municipal, ingresso na Reserva Biológica, autorização da operadora credenciada, equipamento alugado a preço de bolsa de valores e o combustível do barco que, por puro acaso, tem um dos impostos mais altos do planeta civilizado.

Repare na engenharia do esquema, porque ela é elegante na sua desfaçatez. O governo federal taxa o diesel, o governo estadual taxa o ICMS sobre o diesel, o governo municipal taxa a entrada na cidade, a autarquia ambiental taxa a entrada na reserva, e a operadora privada, que sobreviveu a esse cerco de bandeirantes fardados, repassa tudo no preço final. O turista, coitado, acredita que está pagando pela beleza. Está pagando, na verdade, pela burocracia que se interpôs entre ele e a beleza. Toda taxa criada em nome do meio ambiente nasce com a mesma promessa angelical e termina engordando a folha de pagamento de quem nunca pisou numa nadadeira.

A lógica é a mais antiga do mundo, e tem o charme das coisas que sempre funcionam: você cria um obstáculo artificial, batiza o obstáculo de proteção, cobra para remover o obstáculo e ainda recebe agradecimentos. Quem ousa perguntar para onde vai o dinheiro arrecadado é tratado como vândalo. As prestações de contas, quando existem, são lavradas naquele dialeto particular do setor público em que a frase mais clara é o cabeçalho. Enquanto isso, o esgoto da temporada continua escorrendo para o mar que se promete preservar, e a placa luminosa do shopping da orla recebe mais manutenção do que a trilha que leva ao costão. Coincidência, certamente. Sempre é.

Há uma ironia deliciosa em tudo isso, e ela merece ser saboreada com calma. O mergulhador desce vinte metros, vê uma cena que existe ali desde antes de qualquer Constituição, e sobe maravilhado com a generosidade da natureza. Em terra firme, é recebido por um servidor de colete fluorescente lembrando que aquilo só está disponível porque alguém, em algum gabinete climatizado, decidiu permitir. É a inversão completa da realidade: o que é selvagem, livre e anterior ao Estado vira concessão graciosa do Estado. O peixe deve obrigação à secretaria. O coral, gratidão ao protocolo. E o turista, fé.

Planejar uma viagem para mergulhar na Sepultura continua valendo cada gota de sal, isso é fato, e quem nunca viu uma garoupa do tamanho de uma criança pequena passar a meio metro do rosto não sabe ainda do que a vida é capaz. Mas convém ir com os olhos abertos dentro e fora da máscara. Lá embaixo, o silêncio azul não cobra inscrição. Aqui em cima, tudo tem boleto, taxa, tarifa, contribuição compulsória disfarçada de cuidado coletivo. Quem paga é sempre o mesmo, esse personagem incansável que carrega o país nas costas e ainda agradece pela honra. Quem recebe, basta seguir o rastro das diárias, dos cargos comissionados, das licitações para fiscalizar a fiscalização. O mergulho compensa. O resto é teatro caro.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.