A notícia é quase enternecedora na sua domesticidade: ajuste a chama, use a panela certa, tampe a panela, não deixe o fogo ligado à toa. Com essas providências caseiras, diz a reportagem, o cidadão consegue economizar até trinta por cento no consumo de gás. Trinta por cento. Repita esse número em voz alta e perceba o tamanho da confissão involuntária que ele carrega. Se uma família brasileira precisa aprender a cozinhar com a eficiência de um engenheiro da NASA para não quebrar no fim do mês, o problema não está na chama do fogão. O problema está em quem controla o preço do que alimenta essa chama.

O Brasil é o sétimo maior produtor de gás natural do planeta. Senta em cima de reservas colossais no pré-sal, possui refinarias, possui infraestrutura, possui tudo o que seria necessário para que o gás de cozinha custasse uma fração do que custa. E no entanto o botijão come entre cinco e sete por cento da renda de uma família que ganha um salário mínimo. Isso não é acidente. Isso é projeto. A Petrobras, aquela empresa que o contribuinte financiou, que o contribuinte salvou de escândalos bilionários, que o contribuinte sustenta com isenções e subsídios cruzados, pratica uma política de preços que trata o mercado interno como colônia de exploração. O petróleo é nosso, diziam nos anos 50. O petróleo continua nosso; o preço, aparentemente, é deles.

Existe uma cadeia de intermediários entre o poço e o seu fogão que faria corar um agiota medieval. A Petrobras vende para distribuidoras com margem generosa, as distribuidoras vendem para revendedores com outra margem, os revendedores vendem para você com margem final, e sobre cada uma dessas etapas incide uma festa tributária que nenhum político menciona em palanque. ICMS, PIS, COFINS, a criatividade fiscal brasileira encontrou no botijão de gás um hospedeiro perfeito, discreto, silencioso, que não protesta nas ruas porque está ocupado demais tentando fazer o almoço render até o jantar. Cada centavo de imposto sobre o gás é um centavo a mais que o Estado extrai da refeição mais básica do cidadão mais pobre. Não há eufemismo que disfarce isso: é confisco sobre a panela quente.

E então vem o conselho bem-intencionado. Economize. Ajuste. Otimize. Adapte-se. A retórica da adaptação é a grande aliada de todo sistema que não quer mudar. Em vez de perguntar por que o gás custa o que custa, ensinam o pobre a cozinhar melhor. Em vez de desmontar a cadeia parasitária que infla o preço, oferecem dicas de economia doméstica como se fossem caridade intelectual. É o equivalente moderno de dizer ao servo feudal que, se ele aprender a mastigar mais devagar, a porção de pão vai parecer maior. O problema nunca é a porção; o problema é quem ficou com o trigo.

O mais revelador é que esse tipo de matéria aparece com regularidade cíclica, sempre que o preço do botijão sobe ou a inflação aperta. Nunca é acompanhada de uma investigação sobre a estrutura de custos. Nunca traz a composição do preço, a fatia de cada tributo, a margem de cada intermediário. O jornalismo que deveria iluminar a cadeia do dinheiro prefere iluminar a boca do fogão. É mais seguro, mais simpático, não irrita anunciante, não irrita governo, não irrita distribuidora. Só irrita quem percebe que está sendo tratado como idiota.

Então sim, tampe a panela, ajuste a chama, use o acendedor em vez do fósforo, faça o que quiser. Cada centavo economizado é genuinamente seu, e num país onde o Estado confisca antes de você comer, defender cada centavo é um ato de resistência legítima. Mas não se engane achando que o problema é o seu hábito de cozinha. O problema é um sistema que transforma um recurso abundante em artigo de luxo para quem o produz, e que responde à revolta com dicas de etiqueta doméstica. A pergunta que ninguém faz é sempre a mesma: quem está lucrando com a sua dificuldade, e por que ninguém aponta o dedo para cima em vez de apontar para a sua panela destampada?

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.