A imprensa amanheceu com aquele tom doce de tia catequista ensinando criança a não sujar o tapete da sala. Dicas para o turista consciente em Santa Catarina, roteiros de baixo impacto, atitudes que protegem o litoral. Tudo muito bonito, tudo muito limpo, tudo escrito naquele português neutro de cartilha de ONG que sobrevive de edital. O leitor desavisado lê e suspira, comovido com a sensibilidade ambiental do redator. O leitor que já viu esse filme antes pergunta a coisa óbvia: se a praia é pública, se o mar é de todos, se a areia não tem dono, por que diabos alguém precisa de manual de instruções para caminhar nela?

A resposta não está na ecologia, está no orçamento. Toda vez que aparece uma campanha de conscientização, abra a planilha e siga o rastro do dinheiro. Há secretaria envolvida, há fundação parceira, há instituto de pesquisa com CNPJ recente, há influenciador contratado para postar foto pegando canudinho na areia. O turismo consciente vira selo, o selo vira taxa, a taxa vira cargo comissionado, o cargo vira cabide eleitoral. O mesmo movimento que enchia indulgências nas igrejas medievais agora vende absolvição ambiental em formato de adesivo para o carro. Pague, sinta-se virtuoso, suba ao céu verde.

Repare na estrutura do raciocínio que tentam impingir. Toda praia frequentada por turista é praia ameaçada, logo toda praia precisa de fiscalização, logo toda fiscalização precisa de fiscal, logo todo fiscal precisa de salário, logo todo salário precisa de imposto. A conclusão chega antes da premissa, e quando você percebe já está pagando taxa de preservação para entrar em lugar que seu avô atravessava de chinelo sem pedir licença a ninguém. O nativo de Garopaba não precisava de cartilha para não jogar lixo no costão, porque o costão era dele, da família dele, da memória dele. Quem destrói o que ama? Só destrói quem não tem nada a perder, e o sistema que produz desapego em série é justamente o que agora cobra para consertar o estrago que ele mesmo criou.

O paradoxo é delicioso e ninguém nota. O mesmo governo que aprova condomínio de luxo em área de restinga, que libera marina em manguezal mediante o devido carimbo, que tolera esgoto despejado em pleno verão na Lagoa da Conceição, é o governo que publica folheto pedindo ao turista que não pise na grama. A natureza catarinense não está ameaçada pelo casal de Curitiba que esqueceu a sacolinha do biscoito na areia. Está ameaçada pela aliança bem azeitada entre construtora, prefeitura e o silêncio confortável da imprensa local, que vive de anúncio dos mesmos atores. O turista é o bode expiatório perfeito porque vai embora no domingo e não vota na próxima eleição municipal.

Existe, sim, um caminho real para preservar a costa, e ele tem nome antigo: propriedade. Quem é dono cuida, quem é dono não suja a sala, quem é dono não permite que o vizinho jogue lixo no quintal. Onde tudo é de todos, ninguém zela, e o vácuo dessa irresponsabilidade coletivizada é preenchido pelo burocrata que aparece com a solução pronta, vendendo a si mesmo como salvador da paisagem que o próprio cartório dele estragou. A cartilha do turista consciente é a confissão envergonhada de um arranjo que falhou. Tratam o cidadão como criança porque o cidadão aceitou ser criança em troca de uma areia que ninguém lhe garante mais.

Da próxima vez que aparecer a campanha simpática pedindo gentileza ecológica, faça o exercício honesto. Pergunte quem produziu o material, com qual verba, sob qual contrato, com qual contrapartida política. Pergunte por que a mesma autoridade que pede consciência ao banhista não pede consciência ao loteador. Pergunte quem paga a conta da virtude que estão te vendendo no balcão. A resposta vai te surpreender, ou melhor, não vai, porque é sempre a mesma resposta desde que o mundo é mundo: paga quem trabalha, recebe quem legisla. O mar continua azul, e os espertos continuam azuis de tanto rir do trouxa que acredita que veio salvar a baleia.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.