Anunciaram com fanfarra que agora dá para tirar o título de eleitor pelo celular, quase tudo online, rapidinho, prático, moderno. Repare no verbo: quase. Porque no fim da fila digital existe sempre a tal validação presencial, a biometria, o dedo no leitor, o rosto na câmera oficial. A parte divertida do aplicativo é grátis; a parte que interessa ao Estado, a captura biométrica do seu corpo, essa continua obrigatória e inescapável. Chamam isso de modernização. O nome correto é afunilamento.

Pergunte a si mesmo por que um documento que em tese serve apenas para você exercer um direito virou pré-requisito para abrir conta, tirar passaporte, assumir concurso, receber benefício. Direito que, se não exercido, gera multa, bloqueio de CPF, impedimento de emitir segunda via de identidade. Existe palavra mais precisa para isso do que obrigação disfarçada? O voto facultativo nas propagandas, compulsório na prática. O eleitor não escolhe votar: é arrastado para a urna sob ameaça administrativa, e agradece pelo aplicativo que encurtou a fila do próprio curral.

Siga o dinheiro, que é onde mora o diabo. Cada título emitido alimenta uma máquina bilionária de tribunais eleitorais, servidores vitalícios, fundo partidário, fundo eleitoral, horário gratuito que de gratuito não tem nada porque sai do seu bolso via renúncia fiscal às emissoras. Você cadastra a digital achando que está cumprindo dever cívico; na verdade, está legitimando o orçamento de uma casta que vive de eleição em eleição e nunca produziu um parafuso. O aplicativo é o convite educado para a festa onde o anfitrião come a sua comida.

Há algo de cômico na solenidade com que a imprensa oficiosa ensina o passo a passo, como se estivesse revelando o fogo aos homens das cavernas. Baixe o app, preencha o formulário, suba a foto do comprovante, agende o atendimento. Roma tinha o censo a cada cinco anos para saber quantos braços podia recrutar e quantos bolsos podia esvaziar; mudou o figurino, não mudou o propósito. A diferença é que o cidadão romano ao menos sabia que estava sendo contado. O brasileiro moderno acha que está ganhando um mimo da tecnologia.

E note o silogismo simples que ninguém faz em voz alta. Se o voto é um direito, ele não pode ser punido quando não exercido. Se é punido quando não exercido, não é direito, é obrigação. Se é obrigação, toda a retórica sobre cidadania ativa e participação popular é fachada para justificar o confisco do seu tempo, da sua digital e, por tabela, do seu dinheiro. O aplicativo apenas torna o processo indolor, como a anestesia antes da extração do dente que o dentista decidiu sozinho que precisava sair.

Quer facilidade de verdade? Facilidade seria o Estado te deixar em paz quando você decidisse não comparecer. Seria o voto ser voluntário, sem coleira administrativa, sem chantagem de CPF bloqueado, sem sermão de professor de educação moral. Enquanto isso não acontece, celebre o progresso digital com a dose certa de desconfiança: toda vez que o governo oferece algo de graça e cômodo, é bom conferir o bolso, porque geralmente a conta já foi debitada antes do anúncio. Quem paga é você. Quem recebe está em Brasília, batendo martelinho e contando votos que você foi obrigado a depositar.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.