Antes de discutir se o três cilindros turbo da francesa entrega mais torque que o aspirado da italiana, convém olhar para o cupom fiscal. O Renault Kardian e o Fiat Pulse chegam ao consumidor brasileiro com uma carga tributária que, somados IPI, ICMS, PIS, Cofins e o festival de contribuições menores, beira metade do valor final. O leitor acha que está comprando um SUV compacto. Está, na verdade, comprando um pedaço de SUV e financiando um ministério inteiro que nunca vai conhecer. Quem recebe a nota promissória da sua prestação de sessenta meses é um funcionário público que dirige carro oficial e considera o trânsito um problema dos outros.
No papel, a comparação é honesta. O Kardian oferece a plataforma CMF-B, herdada do grupo que também serve Nissan e Dacia, motor 1.0 TCe turbo com respeitáveis cento e vinte cavalos e eficiência energética que compensa a massa. O Pulse responde com a plataforma MP1, motor Turbo 200 de cento e trinta cavalos na versão mais parruda, câmbio CVT que funciona melhor do que a fama dos CVTs brasileiros sugere, e uma rede de concessionárias que cobre até cidade onde ainda se vende querosene a granel. Um é mais refinado na suspensão, o outro é mais macio no bolso da manutenção. Empate técnico que desempata pela geografia: se você mora longe da capital, reza pela peça da Fiat; se mora em grande centro, pode se dar ao luxo do francês.
A curiosidade, entretanto, não está no duelo. Está no cenário. Os dois carros são fabricados no Brasil, com componentes nacionalizados, por operários brasileiros, em fábricas erguidas com incentivos fiscais regionais que o contribuinte de outro estado pagou sem ser consultado. O programa da vez se chama Mover, sucessor do Rota 2030, que por sua vez substituiu o Inovar-Auto, que herdou a tradição do velho regime automotivo dos anos noventa. Muda a sigla, não muda a lógica: o governo cobra imposto do consumidor, devolve parte desse imposto para a montadora em forma de crédito tributário condicionado, e chama isso de política industrial. É o mesmo truque do cassino que cobra a entrada, devolve fichas limitadas, e ainda convence o apostador de que ganhou algo.
A consequência desse arranjo salta aos olhos de quem cruza a fronteira. No Uruguai, no Paraguai, no Chile, carros equivalentes custam, em dólares convertidos, entre trinta e quarenta por cento menos. Não porque os vizinhos tenham fadas madrinhas, mas porque não transformaram o setor automotivo num feudo protegido de meia dúzia de marcas que pagam o pedágio regulatório correto. Aqui, o brasileiro médio trabalha dezoito meses para comprar um utilitário básico. O europeu trabalha seis. O americano, quatro. A diferença não está na produtividade do operário, que é comparável, está na quantidade de parasitas tributários pendurados entre a linha de montagem e o seu estacionamento. E cada tentativa de reduzir essa carga esbarra no mesmo lobby das mesmas montadoras que fingem concorrer entre si enquanto defendem juntas a muralha alfandegária que as protege do concorrente chinês que já vende SUV elétrico pelo preço de um Pulse manual.
Sobre a manutenção, o conselho prático é antigo. Carro francês pede disciplina de revisão e concessionária especializada, caso contrário a primeira correia se transforma em catástrofe orçamentária. Carro italiano pede paciência com a eletrônica, mas perdoa o atraso na revisão e oferece peça de reposição em qualquer esquina do interior. Quem roda muito em rodovia e valoriza estabilidade pega o Kardian. Quem roda pouco, em cidade, e quer revender sem dor pega o Pulse, porque o mercado de usado brasileiro premia a Fiat com uma liquidez que nenhuma planilha de eficiência energética derruba. É escolha de perfil, não de virtude moral.
No fim, a pergunta técnica sobre qual é o melhor SUV compacto é a pergunta errada. A pergunta certa é quem lucra com o fato de que, no sétimo maior mercado automotivo do mundo, o cidadão ainda precise hesitar entre dois modelos básicos porque qualquer opção acima disso foi artificialmente empurrada para fora do seu alcance. A resposta não está no manual do proprietário. Está na Esplanada dos Ministérios, no Sindipeças, na Anfavea e na bancada parlamentar que aprova, com aquela unanimidade suspeita de toda plenária que decide no lugar de quem paga a conta, o próximo programa de incentivo que vai custar caro para quem nunca sentou num showroom. Escolha o seu carro. Só não finja que a escolha é livre.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.