Na conferência Cantor Global Healthcare, a COMPASS Pathways subiu ao palco para tranquilizar acionistas nervosos e sinalizar que o caminho regulatório para o COMP360, sua psilocibina sintética para depressão resistente, ganhou contornos mais nítidos. Tradução do corporate speak: a empresa acredita que convenceu o FDA a aceitar o desenho do estudo de fase três, que a submissão da NDA está no horizonte previsível, e que a REMS, aquele arcabouço regulatório que transforma um cogumelo em farmácia de acesso restrito, será viável. As ações reagiram. O hype voltou. E ninguém no auditório se perguntou a pergunta óbvia, que é por que um composto que existe na natureza há milhões de anos precisa de dez anos de burocracia e centenas de milhões de dólares para virar remédio legal, enquanto o Prozac saiu da prancheta para a prateleira em uma fração desse tempo e desse custo.
A resposta está no arranjo, não na farmacologia. Uma molécula que qualquer laboratório universitário consegue sintetizar, que cresce em floresta úmida sem pedir licença, e cuja evidência clínica preliminar é robusta o suficiente para virar manchete de New England Journal, só se torna investível se for cercada por um fosso regulatório que impeça o concorrente de entrar. Esse fosso se chama patente de formulação, exclusividade de dados, aprovação restrita, e a bendita REMS, que obriga o paciente a tomar a dose sob supervisão de terapeuta certificado em clínica credenciada, com preço tabelado nas alturas. Quem paga essa engenharia jurídica não é o paciente deprimido do interior do Piauí. É o mesmo contribuinte que financiou boa parte da pesquisa básica via NIH, e que agora vai financiar de novo, pelo SUS ou pelo plano de saúde, o produto final privatizado.
Olha, o padrão é antigo e cansa de tão previsto. Governo cria barreira de entrada em nome da segurança do consumidor, empresa incumbente lucra com a barreira, concorrente pequeno morre no berço porque não tem caixa para atravessar o pântano regulatório, e no fim o preço do medicamento reflete não o custo da molécula, mas o custo do lobby. A COMPASS não está errada em jogar o jogo, ela está fazendo o que qualquer empresa racional faria diante das regras dadas. O problema é que as regras foram desenhadas por quem tem interesse direto em mantê-las complexas, porque complexidade regulatória é o oxigênio do consultor, do advogado especializado, do ex-funcionário do FDA que agora vira chief medical officer, e do congressista que recebe contribuição de campanha para não simplificar nada.
Quer dizer, imagine por um segundo um mundo em que a psilocibina fosse tratada como o café. Você tem a substância, um profissional habilitado supervisiona o uso, e o mercado descobre em seis meses qual protocolo funciona melhor, qual clínica cobra menos, qual terapeuta tem os melhores resultados. Preço cai, acesso aumenta, inovação floresce porque mil empresas testam mil abordagens em paralelo. Em vez disso, teremos uma, talvez duas empresas dominando o segmento por vinte anos, cobrando cinco dígitos por sessão, e uma turba de depressivos esperando na fila do plano enquanto a molécula que poderia salvá-los cresce no jardim do vizinho e é ilegal colher. O que se vê é a manchete triunfal do avanço científico. O que não se vê é o cemitério de pacientes que não chegaram até lá porque o cronograma regulatório não sincroniza com o cronograma do sofrimento humano.
E note o detalhe delicioso da coreografia. A empresa vai à conferência, sinaliza confiança, os analistas revisam o preço-alvo para cima, os fundos institucionais aumentam posição, e a diretoria destrava opções de ações que valiam pouco no trimestre passado. Ninguém mentiu, ninguém quebrou lei, tudo dentro do figurino. Só que o valor de mercado que se movimenta nesse balé não vem do produto, que ainda não existe comercialmente, vem da expectativa de que o Estado americano vai autorizar um monopólio temporário sobre algo que não deveria precisar de autorização estatal para existir. Chama-se isso de valor de acionista. Poderia chamar-se, com mais honestidade, valor de captura regulatória precificada em tempo real.
A psilocibina provavelmente vai ajudar muita gente, e isso é uma boa notícia genuína, não uma ironia. O que é irônico, e digno de registro, é que só chegará às pessoas depois de passar por um filtro que triplica o preço, atrasa dez anos o acesso, e transfere para meia dúzia de acionistas em Londres e Boston a renda que deveria estar circulando entre mil clínicos independentes e milhões de pacientes. Um cogumelo virou ativo listado, e a bula será escrita não pela biologia, mas pelo departamento jurídico. Enquanto isso, o depressivo espera, e o consultor de compliance compra apartamento novo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.