Decreto número doze mil oitocentos e oitenta e quatro, com a solenidade de quem assina um tratado de paz, determina que a segunda parcela do décimo terceiro do INSS será paga entre vinte e cinco de maio e oito de junho. Trinta e cinco milhões e duzentos mil benefícios, setenta e oito bilhões e duzentos milhões de reais, e a imprensa repete o número como se fosse milagre da multiplicação dos pães. Não é. É devolução parcial, atrasada e corroída de dinheiro que já era do aposentado antes de o governo encostar a mão. A diferença entre devolver o que tomou e presentear é a mesma que separa um restituidor de um ladrão arrependido, e ainda assim só o segundo cobra gratidão.
Convém lembrar a mecânica do truque, porque o brasileiro tem memória curta e o cofre público depende disso. O trabalhador contribuiu compulsoriamente durante trinta, trinta e cinco, quarenta anos, com alíquotas que em certos momentos beiraram o sequestro patrimonial. Esse dinheiro, em vez de render como renderia numa caderneta medíocre de banco privado, foi para um caixa único onde virou ponte que não saiu do papel, estádio que apodrece, salário de apadrinhado e juros de dívida que ninguém perguntou se queria pagar. Agora, quando o aposentado recebe de volta uma fração escorchada do que entregou, anunciam injeção na economia. Injetam o quê, e em quem? Injetam no eleitor que precisa lembrar de quem é o cheque na hora da urna.
O silogismo é tão limpo que dói. Se o dinheiro pertencia ao contribuinte, devolvê-lo não é benesse. Se devolver o próprio dinheiro do dono não é benesse, então chamar isso de injeção governamental é, na melhor das hipóteses, analfabetismo contábil, na pior, propaganda paga com recurso público. Como o Tesouro contrata estatística, contrata jornalista amigo e contrata silêncio acadêmico, fica fácil entender por que a segunda hipótese venceu a primeira por nocaute técnico. O imperador antigo distribuía trigo confiscado das províncias e a plebe aplaudia o imperador, nunca o lavrador da Sicília que perdeu a colheita. Mudou o figurino, manteve o roteiro.
Há ainda o detalhe pudico que nenhum noticiário ousa abrir. A inflação dos últimos anos comeu, em silêncio educado, parte significativa do poder de compra desse décimo terceiro. O reajuste do benefício, quando vem, vem sempre abaixo da cesta real do velho que precisa de remédio caro, plano de saúde caríssimo e fralda geriátrica que custa o olho da cara porque é tributada como se fosse joia. O governo emite moeda para cobrir o próprio rombo, encarece tudo, depois devolve ao aposentado um pedaço já desidratado e ainda exige aplauso. É o ladrão que rouba o relógio, vende as engrenagens, devolve a caixa vazia e cobra abraço de gratidão pela honestidade.
Siga o dinheiro até o fim e o desenho aparece sem retoque. Quem paga é o aposentado de hoje, que financiou décadas de gastança, e o trabalhador de amanhã, que vai herdar um sistema atuarialmente quebrado e ouvir que a culpa é do mercado, do capital, do clima, de qualquer coisa menos da contabilidade criativa que sustentou a festa. Quem recebe é a máquina, na forma de juros para credores da dívida, salário de servidor de ponta, comissão de banco pagador, propaganda institucional e, claro, a gratidão eleitoral capturada na boca do caixa. O aposentado entra na fila achando que ganhou, sai feliz e nem percebe que foi até o próprio bolso buscar o troco que o assaltante teve a fineza de devolver.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta sobre dinheiro público, e que aqui ecoa com o silêncio constrangido das redações oficiais. Se um benefício gigantesco depende de decreto presidencial para ser pago no prazo, é porque já não há prazo, há favor. Onde há favor, há senhor. E onde há senhor, o cidadão que se imaginava livre descobre tarde demais que trocou a poupança da vida inteira por uma esmola anual com calendário escalonado por número final de cartão. O rei está nu, distribui migalha do pão alheio e ainda manda tocar fanfarra. Caberia, no mínimo, rir.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.