A cena beira o surreal e por isso mesmo precisa ser levada a sério. Um morador estendeu um fio de varal na própria área, pendurou suas roupas, e foi parar no tribunal. Não houve gotejamento sobre a cabeça de ninguém, não houve mancha na parede do vizinho, não houve risco estrutural, não houve nada além do espetáculo banal de um cidadão tentando secar a cueca ao sol. Ainda assim, a Justiça espanhola determinou a remoção imediata do varal, sob o argumento de que o objeto afetava a harmonia estética da fachada coletiva. Em bom português, alguém olhou pela janela, não gostou, e o aparato judicial inteiro se mobilizou para satisfazer esse incômodo decorativo.
Convém parar um instante e medir o tamanho do absurdo. Por séculos o ser humano secou roupa no quintal, na janela, na corda esticada entre duas árvores. Era assim na aldeia medieval, era assim nos cortiços do século dezenove, era assim nos pátios das casas operárias do pós guerra. Em nenhum desses momentos da história alguém imaginou que um tribunal precisasse arbitrar a altura do varal ou a cor das peças penduradas. Bastava o bom senso, o costume, e quando muito uma conversa de corredor entre vizinhos. Agora, no auge da nossa suposta civilização tecnológica, precisamos de um juiz togado para deliberar sobre fio de náilon esticado.
O que está em jogo aqui não é varal, é princípio. A propriedade privada, aquela velha ideia de que o sujeito faz dentro do espaço dele o que bem entender desde que não agrida fisicamente o vizinho, foi sendo erodida por uma sucessão de regulinhas condominiais, normas de convivência e jurisprudências de gosto. Primeiro proibiram a cor da cortina, depois o tipo de planta na sacada, depois o modelo da churrasqueira, depois o varal. A cada rodada, o espaço de liberdade individual encolhe um centímetro, e a cada rodada surge uma figura nova com poder de mandar e desmandar sobre a vida alheia. O síndico que era zelador virou xerife, o regulamento que era acordo virou código penal em miniatura.
E aqui entra a pergunta que ninguém quer fazer: quem ganha com isso? Ganha o advogado especializado em direito condominial, que cobra hora cheia para redigir parecer sobre toalha estendida. Ganha a administradora que vende cursos sobre convivência harmônica. Ganha o juiz que justifica seu salário arbitrando entre o varal de Maria e o olhar de João. Ganha toda uma burocracia parasitária que vive da multiplicação infinita de microconflitos que antes se resolviam no elevador com um aceno de cabeça. O morador, esse paga a conta em forma de cota condominial inflada, taxa de assessoria jurídica, fundo de reserva para processos. Não existe almoço grátis, e cada nova regra é mais uma boca à mesa do contribuinte involuntário.
Há ainda o componente cultural, que é o mais venenoso de todos. Estamos formando gerações que enxergam no Estado, no juiz, no síndico, no condomínio, a instância natural para resolver qualquer desconforto, por menor que seja. Não se conversa mais com o vizinho, denuncia se. Não se pede para abaixar o som, processa se. Não se pergunta se incomoda o varal, aciona se o tribunal. A musculatura social que sustentava a convivência atrofiou, e no lugar dela cresceu um cipoal de normas que só beneficia quem vive de aplicar normas. O cidadão comum, ao aplaudir a remoção do varal alheio, não percebe que está afiando a lâmina que amanhã vai cair sobre a própria sacada.
Resta a constatação amarga de que a tirania moderna não chega de tanque na rua, chega de oficial de justiça batendo na porta por causa de um pedaço de corda. O autoritarismo elegante veste toga, fala em harmonia estética, invoca convenção condominial, e vai roendo a liberdade pelas beiradas até que reste apenas o direito de respirar, e mesmo esse com horário marcado. Quem ainda acredita que isso é progresso civilizatório talvez precise sair da varanda, descer até o varal proibido, e refletir sobre o que sobrou da casa que um dia se chamou sua.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.