O fato é este, nu e sem adorno: um portal de informações publicou, com título e subtítulo, um guia prático de simpatia com canela destinado a conferir coragem ao leitor. Não estamos falando de coluna de horóscopo, daquele cantinho que toda redação envergonhada esconde no rodapé do caderno de variedades. Estamos falando de conteúdo tratado com a mesma gravidade editorial de uma nota econômica, empacotado como informação útil, distribuído para um público que, presume-se, ainda tem neurônios em funcionamento. A pergunta que qualquer pessoa com dois dedos de testa faria é: que civilização chegou ao ponto em que a coragem virou problema de cozinha?

Coragem não é temperamento, não é genética e, com toda a certeza do mundo, não é canela. A coragem é uma disposição adquirida, cultivada no hábito de agir bem diante do risco, calibrada pela razão que sabe distinguir o perigo real do fantasma. É virtude, e virtude se conquista com o exercício repetido da escolha correta, não com ritual de terça-feira ao entardecer. Toda cultura que já produziu algo digno de memória sabia disso. Os gregos tinham nome para a prudência aplicada à ação política e moral, os romanos construíram um império inteiro em cima de uma ética de autodomínio, os escolásticos medievais mapearam as virtudes cardeais com precisão cirúrgica. E nós, herdeiros de milênios de reflexão sobre o que faz um homem ser um homem, chegamos ao século vinte e seis com a seguinte síntese: coloque a canela na mão esquerda e peça com fé.

Mas aqui é onde a análise tem de parar de ser apenas filosófica e encarar o fato econômico e político que produz esse fenômeno. O cidadão brasileiro não nasceu covarde. Ele foi sistematicamente desinvestido de tudo o que faz um ser humano agir com autonomia e iniciativa: propriedade estável, fruto de trabalho não confiscado, capacidade de planejar o futuro sem que o Estado mude as regras no meio do jogo, confiança nas instituições suficiente para apostar na própria vida. Décadas de tributação predatória, de regulação kafkiana que mata o pequeno empreendedor antes de ele abrir a porta, de inflação crônica que corrói a poupança e a esperança simultaneamente, de dependência institucionalizada transformada em política pública, produziram exatamente o que qualquer análise honesta do poder preveria: um povo que terceiriza a coragem porque foi espoliado dos recursos materiais e espirituais de construí-la. O Estado não rouba só o dinheiro. Rouba a autoestima, rouba o horizonte, rouba a sensação de que o esforço leva a algum lugar.

E então entra a imprensa, fiel à sua função histórica de administrar a resignação coletiva. Não é acidente que publicações outrora respeitáveis comecem a misturar análise política com simpatia de canela. É serviço prestado. Um leitor que acredita que sua coragem depende de uma especiaria aromática não vai questionar de onde vem a covardia institucional que o paralisa, não vai rastrear o mecanismo de poder que o colocou nessa posição, não vai se perguntar quem se beneficia da sua incapacidade de agir. Pão e circo é uma fórmula antiga, romana no rótulo mas universal na aplicação: quando o povo perde a capacidade de se indignar com dignidade, você lhe oferece entretenimento que confirma sua impotência e a embrulha em embalagem mística. A diferença entre o circo romano e a simpatia de canela é apenas de produção: o imperador bancava gladiadores, o portal moderno banca o custo de digitação de um estagiário.

Toda decadência civilizacional tem o seu indicador mais honesto, aquele detalhe pequeno que revela o estado real das coisas com mais precisão do que qualquer índice econômico ou pesquisa eleitoral. O Império Romano tardio tinha leis cada vez mais elaboradas para regular cada vez menos coisa real. Bizâncio, nos seus últimos séculos, produziu teologia de qualidade inversamente proporcional à sua capacidade de defender as próprias fronteiras. Nós temos a simpatia de canela elevada à categoria de informação jornalística. O sintoma não é ridículo: o sintoma é trágico. Porque indica que a camada cultural que deveria produzir reflexão sobre os problemas reais preferiu descer ao nível do problema e oferecer ao leitor um espelho lisonjeiro da sua própria impotência, embrulhado em papel de presente aromático.

A única simpatia poderosa com canela que o país precisa é a seguinte: acordar segunda de manhã, abrir o contracheque, somar o que foi deduzido compulsoriamente entre imposto de renda, INSS, contribuições diversas e o imposto embutido em cada produto consumido, e se perguntar com quantas horas do próprio trabalho foi obrigado a financiar o aparato que o deixou sem coragem para perguntar por que está sem coragem. Esse exercício, repetido com honestidade e sem anestesia ideológica, produz mais bravura do que qualquer especiaria do mercado. E não precisa de fé, não precisa de ritual e não precisa que ninguém publique um tutorial sobre como fazê-lo. Precisa apenas de uma coisa que nenhum portal vai oferecer porque nenhum poder vai financiar: a verdade dita sem rodeios.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.