Duzentos feridos, lojas saqueadas, ônibus em chamas, dois mortos segundo o balanço preliminar, e a manchete oficial trata o episódio como se fosse fenômeno meteorológico, uma espécie de chuva de pedras que cai sobre Paris sempre que onze milionários correm atrás de uma bola e ganham. A redação do noticiário descreve como "confrontos", palavra higiênica que sugere dois lados em disputa, quando na verdade o que houve foi turba destruindo patrimônio alheio enquanto a polícia, treinada para reprimir aposentado protestando contra reforma da previdência, assistia com a delicadeza de garçom em casamento burguês.
Convém lembrar o arranjo. O clube em questão pertence, na prática, ao fundo soberano de uma monarquia do golfo Pérsico, que comprou jogadores a peso de petróleo e ergueu uma franquia esportiva para fazer o que se convencionou chamar de "soft power", isto é, lavar reputação de regime que decapita gente por adultério usando o futebol europeu como sabão em pó. A conquista da taça, portanto, não é vitória da cidade, do bairro, da torcida que herdou o time do avô. É vitória de um investimento geopolítico. E os comerciantes da Champs Élysées, esses sim parisienses de verdade, acordam segunda feira para varrer caco de vidro pagando seguro que vai subir, imposto que não desce e funcionário que ficou em casa porque não tinha como chegar ao trabalho.
A lógica é cristalina e por isso ninguém quer enxergar. Se o lucro do espetáculo é privado, indo para os cofres do clube, da federação, das emissoras e dos patrocinadores, e o prejuízo da celebração é socializado, distribuído entre o lojista, o contribuinte e o segurador, então o que se montou ali não é esporte, é esquema. O torcedor médio é convidado a entrar na cilada com a alma incendiada por hinos e a carteira esvaziada por bilhete, camisa oficial, assinatura de canal e, no domingo seguinte, pelo aumento do IPTU para custear a limpeza da avenida.
Há também a teatralização do caos, sempre útil. A cada festa que vira pancadaria, o ministro do interior aparece de terno escuro pedindo "mais recursos", "mais câmeras", "mais agentes", "mais leis", num crescendo que jamais retrocede. A vandalagem de hoje é o pretexto da câmera de reconhecimento facial de amanhã, que será usada não contra o vândalo, que volta para o subúrbio impune, mas contra o cidadão pacato que ousar reclamar do preço do pão na praça pública. O incêndio do quiosque é matéria prima para a fábrica de controle, e quem produz a matéria prima nunca é responsabilizado, porque sem ela a fábrica fecha.
O mais cômico, se não fosse trágico, é o coro melancólico dos cronistas pedindo "educação", "conscientização" e "campanhas". Como se a horda que toca fogo em ponto de ônibus às três da manhã estivesse esperando por um folheto pedagógico do governo francês para entender que vidraça alheia é vidraça alheia. A noção de propriedade não se ensina em campanha publicitária, ela se ensina deixando cada um arcar com o resultado dos próprios atos, coisa que o Estado moderno aboliu em nome da compaixão administrada e da contabilidade criativa.
No fim, o ritual se repete, e se repetirá. Time vence, cidade queima, cidadão paga, governo cresce, monarca do deserto sorri para a câmera segurando a taça. Chamam isso de festa do futebol. Há nomes mais antigos e mais honestos para a mesma cena. Pilhagem patrocinada, por exemplo, é um deles.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.