Repare na cena com algum cuidado, porque ela diz mais sobre o país do que qualquer pesquisa de opinião. Em plena crise de poder de compra, com o salário derretendo na bomba de combustível e na conta de luz, o grande conselho que circula nas redes e nos cadernos de decoração é comprar uma planta verdinha, resistente, que sobrevive na sombra e supostamente atrai prosperidade. A zamioculca virou a mascote oficial de um povo que foi convencido a substituir patrimônio por simbolismo. Quem não pode mais ter casa, ganha um vasinho. Quem não pode mais ter poupança, ganha uma folha lustrosa. E quem cobra a conta dessa pantomima, naturalmente, não é o vendedor de plantas, é o sujeito de gravata que assina decretos no planalto.

A graça da fábula está no detalhe técnico que ninguém comenta. A zamioculca é celebrada por uma única virtude prática, ela sobrevive com pouquíssimo recurso, na penumbra, sem adubo, sem cuidado, sem água. Ou seja, o brasileiro escolheu como talismã exatamente a planta que se parece com ele depois de trinta anos de carga tributária crescente. A metáfora é tão óbvia que dói. Não é a flor exuberante do jardim aristocrático que virou símbolo nacional, é a folhagem espartana que aguenta o escuro. Sobrevivência rebatizada de prosperidade, eis o truque semântico mais bem executado da pequena burguesia tropical.

E aí entra o velho jogo de empurrar amuleto para quem foi furtado. Em todas as épocas de confisco, surge uma indústria paralela de promessas mágicas. Na Roma decadente, vendiam pequenos deuses domésticos enquanto o imperador desvalorizava a moeda. Na França pré revolucionária, vendiam relíquias enquanto a corte gastava o tesouro em festas. Hoje vendem cristais, sais grossos, ferraduras e, claro, a planta da fortuna, enquanto o Banco Central imprime, o Tesouro emite, o Congresso aprova e a Receita executa. O figurino muda, o roteiro é o mesmo. Cobra se o cidadão, oferece a ele uma esperança barata, e segue empurrando a conta para frente.

Siga o dinheiro, como sempre. Quem ganha com a tese de que a prosperidade vem de uma planta? Em primeiro lugar, o comércio horticultor, que faz bem o seu trabalho e merece o lucro, isso não está em discussão. Em segundo lugar, ganha o governo, porque a partir do momento em que o sujeito acredita que a abundância depende de um vaso e não de redução de imposto, de respeito a contratos e de moeda forte, ele para de exigir o essencial e passa a comprar o supérfluo. A despolitização do bolso é o melhor negócio do estatismo. Cidadão que rega zamioculca não rega petição. Cidadão que cuida da planta não cobra a CPI. E o palácio agradece, regado a verba pública e a folhagem cínica.

Não é proibido gostar de planta, evidentemente, e nem é pecado decorar a sala. O problema começa quando a estética substitui a economia, quando o feng shui ocupa o lugar da prudência fiscal, quando o cidadão que perdeu metade do salário no imposto inflacionário se contenta com a promessa esotérica de que a folha verdinha vai compensar o que foi tirado dele à força. A propaganda do regime sempre teve duas pernas, uma para distrair, outra para confiscar. Enquanto o noticiário ensina a regar o vaso, o coletor de tributos rega o orçamento da União. E o pobre coitado, no fim do mês, descobre que o único organismo realmente próspero da casa é o leão, que cresce viçoso na sombra do contracheque alheio.

Se prosperidade fosse questão de planta, a Venezuela seria a Suíça da botânica. Mas a riqueza tem causa concreta, escandalosamente simples e por isso mesmo escondida sob toneladas de misticismo decorativo. Riqueza nasce de propriedade respeitada, de moeda que não derrete, de contrato que se cumpre, de Estado que não rouba. Tudo o que não cabe num vaso de barro. Enquanto o brasileiro for educado a esperar fortuna de uma folha lustrosa em vez de exigir o fim do confisco organizado, ele continuará na penumbra, regando o simbolismo, e algum funcionário público continuará na luz, regando a si mesmo com o suor dos outros. A zamioculca aguenta. O contribuinte, esse, está perto do limite.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.