Kate Kallot, conselheira jurídica-chefe da CoreWeave, vendeu US$ 9,1 milhões em ações da empresa. Não foi o porteiro, não foi um analista de planilha, não foi um estagiário exercendo micharia de stock option. Foi a pessoa que lê os contratos por dentro, que sabe onde estão as cláusulas de risco, que enxerga os passivos antes de qualquer release trimestral chegar ao terminal da Bloomberg. E essa pessoa, diante do próprio balanço, escolheu virar papel em dinheiro vivo.

A CoreWeave é o símbolo perfeito da rodada atual do delírio da inteligência artificial. Aluga GPU para hyperscalers, se financia com dívida garantida pelas próprias GPUs que compra com essa dívida, e vende ao mercado a narrativa de que a demanda por processamento é infinita e o preço, eterno. É engenharia financeira travestida de revolução tecnológica, o mesmo truque das ferrovias no século dezenove e das ponto-com em 1999, agora com sotaque de silício. E como toda festa dessa natureza, tem gente que dança no meio do salão e gente que já está no vestiário chamando o Uber.

Vamos ao que se vê e ao que não se vê. O que se vê é o gráfico subindo, o CNBC entusiasmado, o influenciador de investimento no YouTube explicando por que dessa vez é diferente. O que não se vê é o executivo com acesso ao livro-caixa transformando ação em imóvel, em título do Tesouro americano, em qualquer coisa que não seja o próprio papel que ele acabou de emitir para o público. Insider selling em volume desse tamanho não é diversificação de patrimônio, é sinal de fumaça. Quem tem a informação age; quem tem a manchete reage; e a diferença entre agir e reagir é exatamente o tamanho do prejuízo.

Siga o dinheiro e a história fica ainda mais desconfortável. A expansão monetária que financiou toda essa exuberância veio da mesma impressora que fabricou a inflação que corroeu o poupador americano nos últimos cinco anos. O crédito artificialmente barato inflou o valuation, o valuation inflado permitiu emissões bilionárias, as emissões bilionárias enriqueceram um círculo pequeno de fundadores, advogados e bancos de investimento, e a conta, como sempre, será dividida entre o cidadão que segurou o papel e o contribuinte que socorrerá o sistema quando o boom virar bust. É a mesma peça, com figurino novo, encenada há trezentos anos.

O mais irônico é o coro dos indignados seletivos. Quando um deputado americano compra ações do setor que ele mesmo regula, vira escândalo de capa. Quando a advogada de uma empresa listada saca nove milhões antes que qualquer investidor de varejo entenda o porquê, vira nota de rodapé em portal de notícias. A assimetria de informação é o oxigênio dos mercados manipulados, e ninguém defende a transparência com mais retórica e menos prática do que os que lucram com a opacidade.

Fica a lição, se alguém quiser escutar. Bolha não avisa com trombeta, avisa com formulário 4 da SEC. Quando o time interno começa a vender no ritmo em que o marketing manda comprar, o barco não está afundando ainda, mas o capitão já pediu o colete. Todo o resto é passageiro dormindo na primeira classe achando que iceberg é lenda urbana.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.