O enredo é tão grotesco que precisa ser repetido devagar para o leitor não achar que entendeu errado. Um deputado federal sobe à tribuna e denuncia que material de cunho pornográfico estaria circulando em ambiente escolar. Em qualquer país que ainda preserve um mínimo de instinto civilizatório, a reação imediata seria abrir uma comissão para apurar o conteúdo, ouvir pais, responsabilizar quem expôs menores. Aqui, no trópico onde a lógica entrou em recesso permanente, a reação é outra: um conselho atrelado ao Ministério dos Direitos Humanos pede a abertura de inquérito não contra quem mostrou, mas contra quem denunciou. Repita em voz alta, com calma, e sinta o gosto metálico do absurdo na ponta da língua.
Antes de discutir o mérito da fala parlamentar, convém apresentar o protagonista esquecido da história: o pagador. Esse conselho não brotou da terra como cogumelo após a chuva. Ele tem orçamento, tem diárias, tem passagens, tem assessores, tem secretaria executiva, tem aquele ecossistema infinito de cargos comissionados que o cidadão comum nunca viu, nunca elegeu e nunca autorizou. O dinheiro que sustenta a indignação seletiva desses senhores sai do bolso do pedreiro, da costureira, do motorista de aplicativo, do pequeno comerciante que abre a porta às seis da manhã. O contribuinte é convocado, sob pena de cadeia, a financiar o aparato burocrático que se voltará contra ele assim que ele ousar pensar em voz alta.
Veja o silogismo nu, sem maquiagem retórica. Premissa primeira: o Estado existe, em tese, para proteger a vida, a liberdade e a propriedade dos indivíduos, com ênfase quase devocional na proteção das crianças. Premissa segunda: um agente público denuncia que crianças teriam sido expostas a conteúdo sexualmente explícito em sala de aula. Conclusão inevitável, em qualquer ordenamento minimamente sério: investiga-se a denúncia, não o denunciante. Mas o aparelho burocrático brasileiro inverteu a operação porque o objetivo nunca foi proteger criança nenhuma. O objetivo é disciplinar a fala, marcar território ideológico, mostrar a quem tenta levantar a tampa do esgoto que existe um preço por levantar a tampa do esgoto.
Há um padrão histórico nisso, e quem leu três páginas de qualquer manual decente de história política reconhece o roteiro. Toda burocracia, em todo lugar, em toda época, tende a inchar até justificar a própria existência criando os inimigos que vai combater. Comitês de salvação pública na França revolucionária começaram caçando aristocratas e terminaram guilhotinando padeiros que reclamavam do preço do pão. Tribunais eclesiásticos medievais começaram perseguindo heresia teológica e terminaram processando vizinhos por inveja de vaca leiteira. O mecanismo é sempre o mesmo: cria-se uma estrutura permanente para combater um mal abstrato, e essa estrutura, sob pena de morrer de fome orçamentária, precisa fabricar continuamente novos hereges. O conselho que pede inquérito contra o deputado não está defendendo direitos humanos coisa nenhuma; está defendendo o próprio rodapé do contracheque.
Repare ainda na escolha cirúrgica do alvo. Não se vê esse mesmo conselho se debruçando com fervor sobre crianças mortas em operações urbanas, sobre menores recrutados pelo tráfico, sobre meninas estupradas em comunidades isoladas onde o Estado só aparece para cobrar imposto sobre o sal. A indignação é selecionada a dedo, com pinça, conforme a conveniência política do momento. Quando a vítima não rende manchete favorável à narrativa dominante, o silêncio é catedral. Quando o réu serve ao expurgo do dissidente, a máquina ronca como motor V8. Isso não é descuido nem coincidência; é o desenho do sistema. Quem confunde isso com falha de funcionamento ainda não entendeu que está funcionando exatamente como foi projetado para funcionar.
Resta a pergunta de sempre, aquela que deveria estar gravada a fogo na entrada de cada repartição pública deste país. Quem paga e quem recebe? Paga o brasileiro comum, que acorda cedo, sustenta filho na escola torcendo para que o filho não seja exposto a coisa nenhuma indevida, e ainda é obrigado a financiar o conselho que protegerá com unhas e dentes quem o expôs. Recebe o conselheiro, o assessor do conselheiro, o motorista do conselheiro, o gabinete que processará o deputado, e toda a fauna paraestatal que faz da indignação profissão e da perseguição política, salário. Enquanto isso, a criança, coitada, segue sendo o pretexto que ninguém realmente quer proteger, porque criança protegida não rende cargo, não rende verba, não rende inquérito.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.