O caso é simples e, por isso mesmo, escandaloso. Em 1987, a confederação que cobra pedágio de cada bola rolando no país chegou em maio anunciando, de mãos espalmadas, que não tinha dinheiro para organizar o Brasileirão. Treze clubes grandes, cansados de sustentar uma burocracia que só servia para administrar a própria sobrevivência, fundaram o Clube dos 13 e montaram por conta própria a Copa União. Alugaram estádios, negociaram cotas de televisão com a Globo, dividiram receitas, entregaram o produto. Enquanto isso, a entidade oficial, que meses antes jurava miséria, ressuscitou como por milagre e improvisou um torneio paralelo com os times menores, o tal Módulo Verde e Amarelo, e anunciou que os campeões dos dois módulos se enfrentariam no fim para definir o campeão brasileiro.
Quem pagou o show? Os clubes do Clube dos 13, que bancaram o risco, a logística, a competição de verdade, aquela que o público viu, que a imprensa cobriu e que o Flamengo venceu em cima do Internacional. Quem apareceu para cobrar a comissão? A cartolagem oficial, que no meio do campeonato exigiu que o campeão do seu torneio improvisado, o Sport, disputasse um confronto final com o Flamengo para validar o título. O Flamengo, compreensivelmente, recusou participar de uma farsa desenhada para legitimar quem havia abandonado o barco. A entidade então, ferida no orgulho e no caixa, declarou o Sport campeão brasileiro de 1987 sem que a partida decisiva jamais tivesse ocorrido. É o equivalente esportivo de decretar vencedor de uma maratona o sujeito que ficou sentado na arquibancada porque o corredor da frente não quis voltar na linha de largada.
Note o truque, porque ele se repete em mil outras praças. Um monopólio falha em entregar o serviço que justifica sua existência. A sociedade se organiza espontaneamente e entrega o serviço melhor, mais barato, mais vistoso. O monopolista, em vez de reconhecer a obsolescência, usa o poder de carimbo que ainda lhe resta para reescrever a história e se autodeclarar relevante. É o mesmo roteiro das estatais que quebram e são salvas com dinheiro do contribuinte, dos reguladores que inventam licenças para cobrar de quem já estava trabalhando, dos sindicatos que exigem contribuição de quem nunca pediu sua representação. A fórmula é sempre idêntica: fracassar, exigir relevância por decreto, faturar pela imposição.
Em 2011, a entidade, já sob nova direção, reconheceu formalmente o Sport como campeão único, desconsiderando todo o arranjo da Copa União. Em 2017, diante da pressão histórica e do ridículo, produziu a obra-prima da diplomacia covarde: declarou Flamengo e Sport campeões simultaneamente, cada um com seu diploma, cada um com sua estrelinha, cada um com seu orgulho de torcida. Na justiça, porém, o Sport continuou correndo atrás do reconhecimento como campeão solitário, e em 2023 conseguiu decisão favorável que foi suspensa, reaberta, rediscutida, até que em 2024 o Tribunal Regional Federal da 5ª Região voltou a reconhecer o Flamengo entre os campeões. É o tipo de novela em que o verdadeiro vencedor é sempre o advogado.
Quem perde? O torcedor, que queria saber quem ganhou e precisa consultar jurisprudência. Quem ganha? A estrutura que sobrevive exatamente porque a confusão é o seu oxigênio, porque enquanto houver ambiguidade haverá necessidade de árbitro, e enquanto houver árbitro haverá cargo, salário, viagem, estádio de luxo, comitê técnico, assessoria jurídica. O campeonato de 1987 não terminou em campo, terminou em cartório, e continua sendo disputado em tribunais quase quatro décadas depois. Um torneio que os próprios times organizaram, que os próprios times bancaram, que os próprios times venceram, acabou dividido entre dois donos porque o porteiro, que havia dormido no serviço, insistiu em assinar o livro de visitas depois da festa.
A lição que fica, e que ninguém sobre o gramado quer dizer em alto e bom som, é que nenhuma entidade que vive de taxar a atividade alheia tem incentivo para entregar qualidade, tem apenas incentivo para preservar o direito de taxar. Quando a concorrência espontânea mostra que o serviço pode ser feito melhor sem o intermediário, o intermediário não melhora, ele aciona o advogado. Dois campeões em 1987 não são um acidente da história, são a confissão por escrito de que o monopólio já estava falido em campo, mas ainda funcionava no cartório. O torcedor rubro-negro comemora, o rubro-negro pernambucano comemora, e o brasileiro comum continua pagando ingresso, mensalidade e imposto para manter acesa a chama de uma burocracia que, se dependesse do mercado, teria sido rebaixada para a várzea no mesmo 1987.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.