Trinta e cinco milhões de reais. É o que o Corinthians diz que 11 clubes brasileiros lhe devem por transferências de atletas. Times da primeira e da segunda divisão, gente grande e gente pequena, todos reunidos numa mesma vala comum de caloteiros. O clube do Parque São Jorge formalizou os processos e agora espera que a Justiça, essa mesma Justiça que leva décadas para resolver uma disputa de cerca, resolva em tempo hábil uma briga entre milionários do gramado. A notícia, em si, não surpreende ninguém que conheça minimamente o funcionamento do futebol brasileiro. O que surpreende é que alguém ainda finja surpresa.
O futebol no Brasil opera sob uma lógica que qualquer dono de botequim reconheceria como insustentável: gasta-se o que não se tem, promete-se o que não se pode cumprir, e quando a conta chega, procura-se um terceiro para pagar. Clubes compram jogadores com dinheiro que ainda não existe, parcelam em prestações que dependem de classificações futuras, de cotas de televisão que podem mudar, de bilheterias que oscilam conforme o humor da torcida. É uma pirâmide de expectativas construída sobre areia, e quando alguém tropeça, a fileira inteira desmorona. O Corinthians, que cobra hoje, já esteve do outro lado do balcão inúmeras vezes. A diferença é que agora resolveu judicializar, o que no ecossistema do futebol brasileiro equivale a quebrar um pacto de silêncio entre cúmplices.
A pergunta que o noticiário esportivo jamais formula é a mais elementar de todas: de onde vem, afinal, o dinheiro que circula nesse carrossel? A resposta, para quem segue a trilha sem se deixar distrair pelos gols bonitos, passa invariavelmente por três fontes: o torcedor que paga ingresso e mensalidade de sócio, as emissoras que despejam fortunas em direitos de transmissão, e, claro, o dinheiro público que entra pela porta dos fundos sob a forma de incentivos fiscais, dívidas tributárias renegociadas em condições que nenhuma padaria de esquina jamais conseguiria, e estádios construídos ou reformados com recursos que saíram do bolso de quem nunca pisou numa arquibancada. O Profut, aquela brilhante invenção legislativa que permitiu a clubes bilionários refinanciarem dívidas tributárias monstruosas em até 240 meses com descontos generosos, é apenas o exemplo mais descarado. Um cidadão comum atrasa o IPTU e perde o imóvel. Um clube de futebol acumula centenas de milhões em débitos com a União e ganha um programa especial com nome bonito.
Quando o Corinthians processa 11 clubes por calote, o que se revela não é um defeito do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado. O futebol brasileiro é uma versão em miniatura do próprio Estado brasileiro: uma máquina de transferir riqueza de quem produz para quem consome, de quem paga para quem recebe, de quem cumpre contrato para quem dá calote e sobrevive para contar a história. Os dirigentes, blindados por eleições internas que fariam corar os caciques do interior, gastam sem prestar contas reais, endividam-se sem consequências pessoais e, quando tudo desaba, aparecem na televisão pedindo "união da torcida". É o velho truque: socializar os prejuízos depois de ter privatizado os benefícios. Os salários astronômicos já foram pagos, as comissões de empresários já foram depositadas em contas que ninguém audita, os mandatos já foram cumpridos. Sobram as dívidas, e essas, como sempre, ficam para o próximo.
O mais irônico é que o próprio Corinthians, esse credor indignado de hoje, carrega um passivo que daria material para uma enciclopédia da irresponsabilidade financeira. A Neo Química Arena, erguida com dinheiro da Caixa Econômica Federal, ou seja, com dinheiro seu, meu, do aposentado de Garanhuns e da professora de Cruzeiro do Sul, continua gerando controvérsia sobre quem paga o quê e quando. É como assistir a um devedor contumaz processando outros devedores contumazes, todos financiados, em última instância, pelo mesmo sujeito que nunca é consultado: o pagador de impostos. Nesse teatro de cobranças cruzadas, a única constante é que o dinheiro sai do bolso de quem trabalha e chega ao bolso de quem negocia. A bola rola, os contratos se acumulam, as dívidas se multiplicam, e no fim do dia, como em toda boa operação estatal disfarçada de iniciativa privada, a pergunta permanece: quem paga e quem recebe? No futebol brasileiro, a resposta é sempre a mesma. Você paga. Eles recebem.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.